Direitos Reservados - LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998, Citar fontes

terça-feira, 30 de abril de 2013

18 de Maio: Dia Nacional da Luta Antimanicomial - Tema da campanha deste ano é "Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir".


O Dia Nacional da Luta Antimanicomial, comemorado em 18 de maio, representa a reivindicação antiga de profissionais da Psicologia, familiares e militantes que defendem mudanças no modelo de atenção à saúde mental no Brasil. Este ano, o tema da campanha é “Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”.
Para o Conselho Federal de Psicologia (CFP), é necessário reafirmar os valores e princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira no que diz respeito aos ideais de ampliação da esfera pública e de transformação social que motivaram essa importante conquista da sociedade brasileira.
Infelizmente, as políticas de saúde mental no Brasil estão sendo ameaçadas por projetos de lei que prevêem o retorno de um modelo de intervenção amplamente criticado por profissionais, pesquisadores e movimentos sociais, que, além de excluir, desumaniza.
Para a conselheira federal Heloisa Massanaro, é necessário reafirmar a liberdade como direito. “O tema deste ano é muito significativo, pois reafirma o nosso sonho de liberdade e aquele que não respeitar será incomodado. É um grito de guerra, de luta e de cidadania”, destacou.
O CFP defende a Política Nacional de Saúde Mental amparada pela Lei nº 10.216 que garante o acesso aos usuários com transtornos mentais aos serviços disponíveis na rede pública de saúde mental. E se posiciona contra a decisão do governo em adotar a internação compulsória como principal dispositivo de tratamento aos usuários de álcool e outras drogas em instituições fechadas de caráter privado e religioso, como, por exemplo, as comunidades terapêuticas.
Além disso, o CFP valoriza a construção histórica dentro do SUS de experiência efetivas de cuidado através da rede pública que estão sendo negligenciadas em função de interesses privados.
Dia de luta
O Dia Nacional da Luta Antimanicomial foi instituído após profissionais da saúde mental, cansados do tratamento desumano e cruel dado a usuários do sistema de saúde mental, organizarem o primeiro manifesto público a favor da extinção dos manicômios durante o II Congresso Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental realizado em 1987, na cidade de Bauru/SP.  Naquela manifestação, nasceu o Movimento Antimanicomial.

Fonte: CRP

domingo, 28 de abril de 2013

A PSICOLOGIA E A “CURA” DA HOMOSSEXUALIDADE



Autor: Anselmo de Lima Chaves
Psicólogo membro do GT de Combate à Homofobia no CRP 03 - BA 


Quando o psicólogo recebe alguém que, dizendo buscar a “cura” da homossexualidade, afirma sofrer ou sentir muita angústia com o desejo por outras pessoas do mesmo sexo, ele não poderá, em sua prática, partir do pressuposto de que o desejo pelo mesmo sexo é, em si, algo doloroso ou angustiante, e muito menos uma doença da qual se pode obter uma cura – do contrário estará assumindo um preconceito, no sentido explícito do termo: conceito prévio, sem qualquer reflexão sobre ele. Um psicólogo que parte de preconceitos, a rigor, pratica, se nos é permitido assim nos expressarmos, uma pré-psicologia. Nesse sentido, é imperativo profissional que ele deve, antes de tudo, refletir sobre a demanda de cura do desejo homossexual perguntando ao outro o que há de tão doloroso e angustiante em desejar outra pessoa do mesmo sexo, já que é possível encontrar, em outros lugares e em outros tempos, outras pessoas com o mesmo desejo, mas sem qualquer dor ou angústia por isso - e sem qualquer sentimento de terem alguma doença.
 
Assim, se um psicólogo não pergunta pelo motivo ou razão do sujeito e, abrindo sua “gaveta de ferramentas”, vai prontamente aplicando suas “técnicas psicológicas”, ele está oferecendo um serviço de maneira cega, reduzindo a sua prática a um ato predominantemente técnico, não-reflexivo, como se trabalhasse num universo puramente natural, biológico ou mecânico, caracterizado pela necessidade, e que não envolvesse justamente um mundo que abarca um conjunto de elementos sócio-culturais, caracterizado pela arbitrariedade, como são os valores sociais. Para que ele ofereça um serviço com o mínimo de crítica, e, com isso, previna-se de estar, sem o saber ou sem perceber o perigo, a serviço dos valores estabelecidos numa sociedade, deve superar a teologia e a metafísica partindo da lúcida consideração de que não existem valores e normas eternos, desde sempre criados, para além da realidade humana, e, sim, valores e normas inventados, construídos num determinado espaço e num determinado tempo a partir da relação de determinados poderes condicionados socialmente.
 
À medida que escuta, o psicólogo pode identificar quais são os elementos sócio-culturais em jogo e oferecer os conhecimentos que dispõe sobre eles, de modo a possibilitar uma reflexão da pessoa sobre a sua própria demanda. Para que, de fato, realize aquilo que é, de direito, sua competência, de modo que venha a, realmente, cuidar do outro, ele não pode, assim, dispensar todos os importantes e probos conhecimentos fornecidos pelas chamadas ciências humanas, seja a história, a sociologia e a antropologia, entre outras - e muito menos a filosofia, que o educa na reflexão rigorosa e moderação cautelosa, além da arte, que lhe desenvolve a capacidade de assimilar e transformar todas as suas experiências e conhecimentos adquiridos em uma unidade criativa e revigorante. Isso exige que o psicólogo esteja livre de preconceitos, ou seja, de conceitos pré-concebidos ou irrefletidos, desvinculado de qualquer dogmatismo e, principalmente, de qualquer obscurantismo religioso – do contrário, seu título de psicólogo não será mais que um disfarce para encobrir que, no fundo, não busca o cuidado da vida psíquica de quem o procura por ajuda, mas, em nome do Bem, do Ser, da Verdade, de Deus ou de algum modelo social hegemônico de normalidade, a correção do outro, cultivando-lhe no terreno de seus desejos por pessoas do mesmo sexo, a erva daninha da má consciência e da culpa, promovendo, assim, ao invés de saúde, doença psíquica - sob a forma, no mínimo, da depressão.
 
A resolução CFP 001/99 de 22 de março não priva a quem queira deixar a homossexualidade da assistência de um psicólogo, mas, “considerando que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”, estabelece que os psicólogos, como está no artigo 4º, não devem colaborar “com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”. O psicólogo deve promover o bem-estar das pessoas, mas isso não quer dizer que, diante de um mal-estar devido à má-consciência de alguém sobre o próprio desejo homoerótico, ele deva ajudar a acabar com o desejo – tal como um dentista, e, talvez, um mau dentista, que acaba com uma dor de dente arrancando-o - mas, sim, com a má-consciência – o que não significa também estabelecer e fixar na pessoa uma identidade homossexual. A resolução não obriga o psicólogo, dessa maneira, a negar assistência a quem procure a “cura” da homossexualidade, mas, como está no artigo 2º, “contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas” – e inclusive contra a própria pessoa (a chamada “homofobia interna”).
 
Se poderíamos falar de “cura” enquanto resolução de um problema, talvez fosse também adequado, nesse sentido, dizer que, se o psicólogo deve curar alguém ou uma sociedade de algo, esse algo seria o heterossexismo ou heterocentrismo, a crença, sem fundamento científico, de que só a relação heterossexual, entendida como relação entre pessoas de sexos diferentes, é universalmente válida, desejável e aceitável, idéia que gera preconceito, discriminação e intolerância sobre os que seguem práticas sexuais desviantes da norma estabelecida histórico-sócio-culturalmente, e produz, com isso, mal-estar, dor e sofrimento.
 
O psicólogo, assim, em resumo, deve prestar assistência ofertando não um tratamento para a “cura” do desejo por outras pessoas do mesmo sexo, mas, sim, seu conhecimento (científico), de modo a possibilitar uma reflexão da pessoa sobre a sua própria demanda e, então, eliminar não o desejo homoerótico (se isso fosse, de fato, a nível inconsciente, possível), mas a má-consciência sobre esse desejo.
 
No entanto, naquilo que compete à formação do psicólogo, a resolução CFP 01/99, para ser teoricamente garantida, pressupõe que os cursos de psicologia ofereçam, de fato, tal conhecimento, proporcionando discussões e reflexões referentes à diversidade sexual, papéis de gênero e homofobia. Até o momento, não verificamos isso acontecer, pelo menos até onde nossa vista alcança, senão por parte de audazes estudantes que, percebendo essa lacuna na formação, buscam por meios próprios, através da organização de eventos, suscitar o debate e a reflexão no meio acadêmico. A eles e a todo o movimento gay, entre heterossexuais, homossexuais, bissexuais, travestis, lésbicas, transexuais, transversais, indefinidos, inominados e confusos, nosso sincero agradecimento.
 
De todo modo, sugerimos a leitura de alguns livros que podem, pra começo de conversa, possibilitar ao psicólogo que não teve a mínima formação sobre a questão da orientação sexual, a começar a refletir e ajudar, com os conhecimentos neles contido, aquele ou aquela que o procura para a “cura” da homossexualidade - ou que, porventura, venha a procurá-lo nesse sentido -, a refletir, com fundamento científico, que não é anormal desejar o sexo igual:
 
História da Sexualidade, de Michel Foucault (Graal).
Devassos no Paraíso: a Homossexualidade no Brasil, da Colônia à Atualidade, de João Silvério Trevisan (Record)
Homossexualidade: Mitos e Verdades, de Luiz Mott (GGB)
O que é homossexualidade?, de Peter Fry e Edward McRae (Zahar)
Os fundamentos do Sexo Espartano, de Ricardo Líper (RCP)
   Um corpo estranho: ensaio sobre sexualidade e teoria queer, Guacira Lopes Louro (Autêntica)
 

Todo bom começo.... tem um.... professor




A educação brasileira vista hoje como antagonista perpassa por um caminho de difícil conciliação entre realidade e ideal. Propondo uma reflexão para os problemas inerentes a educação, deve-se lembrar que seu processo no patamar público, talvez com o slogan “educação para todos”, se deu entre os anos 70 e 80, pautado nas bases do positivismo ortodoxo. Atualmente, os processos educacionais vêem sendo analisados e revistos em sua completude, visto que, com a ascensão da globalização o país precisa se adaptar ás novas exigências do mercado. A educação ainda é um processo elitizado socialmente, mesmo havendo um incentivo financeiro por parte do Estado, apenas uma parcela daqueles que entrarem nas séries iniciais chegarão ao ensino superior, e o pior, apenas uma parcela desse montante será considerada alfabetizada, enquanto que a outra ficará entre o analfabetismo funcional e o analfabetismo rudimentar. Ora, as políticas públicas visão o alicerce básico para uma educação para todos com uma base conceitual única validada para todo o espaço nacional,  mas a falta de condições de horizontalidade  permitem que o ensino chegue a alguns de forma plena, enquanto que a outros de forma desfocal, consequência esperada: os grandes centros formarão cidadãos enquanto que os periféricos formarão apenas humanos, como diria Neitzche, rebanho. A educação ainda percorre os dogmas aristotélicos de que alguns nasceram para mandar e outros para obedecerAlguns possuem vontade própria e outros dependem da vontade de outros.
Quando pensamos em educação automaticamente ligamos a instituição Escola, que por sua vez nos dá a noção de que essa possui como única função: ensinar a ler e a escrever. Parece ser um processo simples, olhado pelo prisma daquele que consegue ler este texto, mas que em outro ângulo denota incompreensão. As neopolíticas de educação, pautadas no universo capitalista, transferem para a escola a função ilusória de salvação civil, que por sua vez transfere para o aluno a função "autodidata" de aprendizagem, mesmo sem que esse não possua uma estrutura física quanto conceitual para essa façanha, ao contrário da-se algumas "gorjetas" como meio de "incentivo", uma vez que apenas num país subdesenvolvido ser estudante é forma de classificação funcional nos cadastros gerais. Estudar, tornou-se uma obrigação empregatícia, ao qual muitos preferem depender dos fundos do governo, a se desenvolverem e fazer do Estado um dependedor. Essa seria a forma mais completa de pão e circo.
A estagnação do ensino no país é pragmática. O eixo central de uma escola é sem dúvida o professor. Mesmo com a ascensão de politicas de nivelamento nas relações aluno-professor, vê-se uma dependência da parte que necessita (aluno) para aquela que está ali - é o que se espera, ou esperava - , para sanar essa necessidade (professor). Somos seres capitais crentes na teoria da fortuna, e, acreditando nessa teoria de "prosperidade" nos deparamos com um professor se vê a mercê de uma desvalorização capital para as suas funções, um desrespeito pessoal e intelectual. E por sua vez, nos deparamos com alunos sendo produto dessa insatisfação. É uma espécie de efeito dominó, que não há culpados diretos, uma espécie de "quadrilha" sem um único chefe. A educação deixou de ser um problema somente social passando a ser individual. Todos são culpados, até porque, como diria a publicidade política:"Todo bom começo tem um ... professor".

sábado, 6 de abril de 2013

Todas as relações são nossos presentes!


Celebrar a relação é fortalecer os vínculos, renovar os laços e ressignificar o amor, lembrando o quanto é bom repartir a vida com o outro. Todos os dias temos motivos para estar presentes nas nossas relações". 
Essas são as palavras definidas pela empresa Natura para explicar a nova campanha. Uma campanha que vem de encontro as discussões que alvoraçam a população brasileira nos últimos tempos: As Relações.

Uma triste notícia!!

Aos 84 anos de idade, morreu Sigmund Freud, num hospital de Londres, capital do Reino Unido. Acredita-se que o pai da psicanálise tenha falecido devido a uma dose excessiva de morfina, utilizada para amenizar dores na garganta, originadas de um câncer na mandíbula. No fim da vida, um dos maiores gênios do século XX se submeteu a mais de trinta cirurgias, no intuito de eliminar a doença que, na época, não tinha cura ou tratamento eficaz.




Virtude e Felicidade




Entendendo que a sociedade ao longo de seu percurso até a consolidação das condições atuais, se viu muitas vezes coagida e outras onipotente, conseguiu galgar e se consolidar ao que chamamos de sociedade civil, representada pelas cidades, que nada mais são que grupos reunidos em torno de uma constituição universal, calçada por leis, ordens, direitos e deveres para os que ali habitam. O indivíduo possui uma relação direta com os grupos e todo indivíduo passa a maior parte do tempo de sua vida convivendo e interagindo com distintos grupos. As sociedades dependem do funcionamento eficiente dos grupos para proporcionar o equilíbrio psíquico, social e material e espiritual aos seus membros. Em grupo é possível desenvolver habilidades pessoais e interpessoais, através do desempenho de papéis designados pela cultura que o indivíduo esta inserido. Com isso, Freud (1921) corrobora com a idéia de que os “intensos vínculos emocionais que observamos nos grupos, são inteiramente suficientes para explicar uma de suas características: a falta de independência e iniciativa de seus membros, a semelhança nas reações de todos eles, sua redução, por assim dizer, ao nível de indivíduos grupais. Mas, se o considerarmos como um todo, um grupo nos mostra mais que isso”. Esta sustentação freudiana esta pautada nos achados de Trotter que afirma:
“Trotter deriva os fenômenos mentais, descritos como ocorrentes nos grupos, de um instinto gregário (‘gregariousness’, gregarismo) inato aos seres humanos, tal como a outras espécies de animais. Biologicamente, diz ele, esse gregarismo constitui uma analogia à multicelularidade, sendo, por assim dizer, uma continuação dela. (Em termos da teoria da libido, trata-se de uma outra manifestação da tendência proveniente da libido e sentida por todos os seres vivos da mesma espécie, a combinar-se em unidades cada vez mais abrangentes. Se está sozinho, o indivíduo sente-se incompleto. O medo apresentado pelas crianças pequenas já pareceria ser uma expressão desse instinto gregário. A oposição à grei é tão boa quanto a separação dela, sendo assim ansiosamente evitada. Mas a grei se afasta de tudo que é novo ou fora do comum. O instinto gregário pareceria ser algo primário, something which cannot be split up (algo que não pode ser dividido)”. (Freud, 1921, pag. 128)
a filosofia de Aristóteles é conhecida como eudonista, ou seja, ela tem como objetivo a felicidade na vida humana. Para ele, a felicidade é algo absoluto e auto-suficiente, sendo a finalidade última de qualquer ação humana, ela é o mais alto de todos os bens que se pode alcançar pela ação.
 Pois bem, a sociedade civil tem como meta “viver bem”, e para isso utiliza-se de suas instituições para que esse estado de “satisfação” seja alcançado em sua plenitude. A felicidade é algo que irá surgir, assim, quando o homem realizar aquilo para o qual é feito – o fim -, seria a mesma sensação de quando um direito humano fosse respeitado e um dever fosse cumprido, são nessas formas que a razão, uma vez que, o bem do homem é realizar a sua função,e deve ser algo que lhe é próprio. Disso exclui-se sua vida de nutrição e crescimento porque é algo que também está presente nas plantas. Também se exclui a vida de percepções porque esta é comum aos animais.  Resta ao homem uma função que não está presente nas plantas e tampouco nos animais: exercer sua atividade racional.  O exercício desta atividade é, pois, o bem próprio do homem.  O bem é, pois, aquilo a que todas as coisas tendem, ou seja, a sua finalidade.  Desse modo, pode-se inferir que há tantos bens quantos sejam os fins existentes.
Mas o homem somente atinge a felicidade se realizar com excelência a função que lhe é própria. Para isso, ele precisa exercer sua atividade racional em consonância com a virtude.   Além disso, se houverem várias virtudes, ele deve exercer tal atividade em conformidade com a melhor e mais perfeita.  Não bastasse isso, deve sentir prazer em praticar as ações virtuosas.  Assim, a felicidade é uma atividade conforme a virtude perfeita, mas, Aristóteles afirma que há um fim que é perseguido por ele mesmo: o sumo bem. Trata-se de um bem absoluto e incondicional e que deve ser buscado por si mesmo.  Ele representa o final deste encadeamento de fins.   No homem, o conceito de sumo bem é exatamente o mesmo de felicidade: ela é procurada sempre por si mesma e nunca com vistas à outra coisa. 
            As palavras do dramaturgo e poeta Terêncio “Sou um homem: nada do que é humano me é estranho”, corroboram para indicar as coisas que Aristóteles chama de próprios da natureza humana das que estão no âmbito moral ou chamado de virtudes. Para ele as coisas que são da natureza humana se manifestam primeiro como potência para depois tornarem-se ação. As nossas funções biológicas seriam um exemplo.
            Sobre as nossas virtudes, Aristóteles sustenta que nenhum tipo de virtude pode ter sua origem na natureza humana. Tanto a virtude intelectual quanto a virtude moral são desenvolvidas, sendo que a primeira delas desenvolve-se através do ensino e a segunda desenvolve-se através do exercício continuado. Portanto as nossas virtudes necessitam ser adquiridas ao longo de um tempo a partir de um aprender, ora, aprendemos a ser justos, quando mantemos relações com outras pessoas, percebendo como elas agem com os outros ou com nós mesmos. Aristóteles ainda faz distinção entre dois tipos de virtude: a virtude intelectual e a virtude moral.  A primeira é desenvolvida através do ensino experiência e tempo.  A segunda é adquirida pelo hábito e é nesta que repousa o interesse da investigação aristotélica.
Uma virtude moral, jamais pode existir em função de uma natureza humana, assim, o ato de respirar não torna um homem bom e tampouco mau. O ato de respirar é um comportamento natural e, portanto, caracteriza-se como um comportamento necessário.  Não é facultado ao homem escolher entre respirar ou deixar de respirar.  Ele já nasce com mecanismos naturais que o impelem a fazê-lo e ele nada pode fazer para mudar isso. Em contrapartida, um homem virtuoso e bom é aquele que é dotado de virtudes morais, ou seja, um homem virtuoso é aquele que consegue exprimir de forma “correta” seus comportamentos e ações, mesmo que ele necessite renegar socialmente sua verdadeira essência.
            Fica difícil julgar um homem como bom ou mal por comportamentos próprios da sua na natureza humana. Por outro lado, há comportamentos que todo homem pode manifestar ou deixar de fazê-lo.  São comportamentos que não são determinados pela natureza humana e, portanto, não se revestem do caráter de necessidade. Sobre estes comportamentos, o homem é capaz de deliberar e de ter algum tipo de controle. É esta categoria de comportamentos que se encontram no escopo da moral e que caracterizam tanto a virtude moral quanto a sua oposto, o vício. O ato de mentir não é um comportamento imposto pela natureza humana e, portanto, não é um comportamento necessário.  Um homem pode tanto mentir quanto falar a verdade e o que ele fará dependerá de sua própria deliberação.
Por isso para construir o conceito de virtude, Aristóteles divide tudo aquilo que se apresenta à mente humana em três espécies de coisas: paixões, faculdades e disposições. As paixões são todos os sentimentos que podem aflorar em quaisquer homens. As faculdades representam as capacidades que os homens possuem por natureza, inclusive a de sentirem as paixões. Tanto as faculdades quanto as paixões, em si mesmas, são naturais ao homem e, portanto, não podem ser utilizadas como critério para julgá-lo bom ou mau. Restam apenas as disposições e é aqui que reside a virtude moral.  As disposições representam estados de caráter e definem o modo como o homem utiliza suas faculdades e como ele se relaciona com suas próprias paixões. A virtude moral pertence, pois, ao gênero das disposições do homem.
            A virtude é um tipo de mediania porque visa o “meio-termo”. Entretanto, há dois diferentes significados para meio-termo: o meio-termo relativo ao objeto (métron) e o meio-termo relativo ao homem (mesótis). O primeiro significado representa um ponto equidistante entre dois extremos e é um e o mesmo para todos os homens (um exemplo disso é o número seis como meio-termo entre os números dois e dez).  O segundo significado indica somente um ponto variável entre dois extremos e que pode ser diferente para diferentes homens. Resumindo, o equilíbrio é a virtude. Com isso a virtude moral deve ser uma disposição que vise o meio termo no que diz respeito às paixões. Neste contexto, o vício é caracterizado tanto pela insuficiência quanto pelo excesso de qualquer paixão. Por exemplo: o homem que cede a todos os prazeres torna-se intemperante e aquele que evita todos eles torna-se insensível.  Por esse motivo, a virtude reside em sentir as paixões nos momentos certos, relacionando-as aos objetos certos, dirigidas às pessoas certas, pelo motivo certo e do modo correto.
            A busca desse equilíbrio, ou mesmo os excessos, se dão por conta de ações voluntárias. Ora, a dor da paixão é inevitável, porém sofrer com ela é opcional, com isso, Aristóteles faz uma distinção importante entre as ações voluntárias e as involuntárias.   As primeiras são aquelas cujo princípio motor está dentro do próprio sujeito da ação e as segundas são aquelas cujo princípio motor está dentro dele.
Uma ação involuntária nunca deverá ser alvo de louvor e tampouco de censura e, portanto, não caracterizarão a virtude e nem o vício.  Este tipo de ocorre por compulsão ou por ignorância. Este é o caso de uma pessoa que seja levada pela força do vento ou arrebatada por homens mais fortes que ela. Mas, há um conceito que tem muito mais extensão do que o conceito de voluntariedade: trata- se do conceito de escolha.   Segundo Aristóteles, crianças e animais inferiores também realizam ações voluntárias, mas não escolhas.  A cólera e o apetite estão presentes até em criaturas irracionais.
Ninguém escolhe coisas impossíveis, mas pode desejá-las.  A escolha relaciona-se, portanto, a coisas que estão ao alcance do homem e esta distinção é feita pelo uso de sua racionalidade. Assim, pode-se dizer que a escolha é voluntária, mas que nem tudo o que é voluntário resulta de uma escolha. Observe-se que a escolha envolve o uso da racionalidade enquanto uma ação simplesmente voluntária não a exige. Disso infere-se que uma ação só é virtuosa se for realizada voluntariamente e se for resultado de uma deliberação racional. O princípio racional é, pois, fator indispensável para a da virtude.
            Enfim, o marco da doutrina sobre virtudes defendida por Aristóteles, se entrelaça bastante com a sua também obra sobre a felicidade. A felicidade é o objetivo comum de todo ser humano, mas para chegá-la é necessário utilizar de uma atividade racional para escolher o melhor caminho, talvez o não mais fácil, porém, o mais virtuoso. E é somente através de sua racionalidade que o homem pode se tornar virtuoso e realizar o seu fim e, como conseqüência, atingir a felicidade.

Referência:

ARISTÓTELES. Ética e Nicômaco

A virtude e a felicidade em Aristóteles
Autor: Rui Rossi dos Santos

Psicologia de Grupo 
Autor: Freud

terça-feira, 2 de abril de 2013

Dia da conscientização do AUTISMO




No dia 2 de abril, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) chama a atenção de todas (os) as (os) psicólogas (os) para a importância da atenção integral às pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo e suas famílias. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Dia Mundial da Conscientização do Autismo em 18 de dezembro de 2007 e, desde então, diversas campanhas “azuis” são feitas pela causa.
O autismo é mais comum do que se pensa: atinge 70 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. No Brasil, a estimativa é de mais de 2 milhões de autistas, de acordo com a ONU. Por isso a importância de avançar na formação de profissionais de saúde para atuar nesta área, já que no Brasil as ações em torno do tema ainda são pontuais e individualizadas.
A integralidade do cuidado, a garantia da cidadania e a inclusão do tema na Rede de Atenção Psicossocial, com a construção de projetos terapêuticos individuais, são pontos que devem ser amplamente discutidos para garantir uma inserção social cada vez maior das pessoas com autismo.