Entendendo
que a sociedade ao longo de seu percurso até a consolidação das condições
atuais, se viu muitas vezes coagida e outras onipotente, conseguiu galgar e se
consolidar ao que chamamos de sociedade civil, representada pelas cidades, que
nada mais são que grupos reunidos em torno de uma constituição universal,
calçada por leis, ordens, direitos e deveres para os que ali habitam. O indivíduo possui uma relação direta com
os grupos e todo indivíduo passa a maior parte do tempo de sua vida
convivendo e interagindo com distintos grupos. As sociedades dependem do
funcionamento eficiente dos grupos para proporcionar o equilíbrio psíquico,
social e material e espiritual aos seus membros. Em grupo é possível
desenvolver habilidades pessoais e interpessoais, através do desempenho de
papéis designados pela cultura que o indivíduo esta inserido. Com isso, Freud
(1921) corrobora com a idéia de que os “intensos vínculos emocionais que
observamos nos grupos, são inteiramente suficientes para explicar uma de suas
características: a falta de independência e iniciativa de seus membros, a
semelhança nas reações de todos eles, sua redução, por assim dizer, ao nível de
indivíduos grupais. Mas, se o considerarmos como um todo, um grupo nos mostra
mais que isso”. Esta sustentação freudiana esta pautada nos achados de Trotter
que afirma:
“Trotter deriva os
fenômenos mentais, descritos como ocorrentes nos grupos, de um instinto
gregário (‘gregariousness’, gregarismo) inato aos seres humanos, tal como a
outras espécies de animais. Biologicamente, diz ele, esse gregarismo constitui
uma analogia à multicelularidade, sendo, por assim dizer, uma continuação dela.
(Em termos da teoria da libido, trata-se de uma outra manifestação da tendência
proveniente da libido e sentida por todos os seres vivos da mesma espécie, a
combinar-se em unidades cada vez mais abrangentes. Se está sozinho, o indivíduo
sente-se incompleto. O medo apresentado pelas crianças pequenas já pareceria
ser uma expressão desse instinto gregário. A oposição à grei é tão boa quanto a
separação dela, sendo assim ansiosamente evitada. Mas a grei se afasta de tudo
que é novo ou fora do comum. O instinto gregário pareceria ser algo primário, something which cannot be split up (algo
que não pode ser dividido)”. (Freud, 1921, pag. 128)
a filosofia de Aristóteles é conhecida como
eudonista, ou seja, ela tem como objetivo a felicidade na vida humana. Para
ele, a felicidade é algo absoluto e auto-suficiente, sendo a finalidade última
de qualquer ação humana, ela é o mais alto de todos os bens que se pode
alcançar pela ação.
Pois bem, a sociedade civil tem como meta
“viver bem”, e para isso utiliza-se de suas instituições para que esse estado
de “satisfação” seja alcançado em sua plenitude. A felicidade é algo que irá
surgir, assim, quando o homem realizar aquilo para o qual é feito – o fim -,
seria a mesma sensação de quando um direito humano fosse respeitado e um dever
fosse cumprido, são nessas formas que a razão, uma vez que, o bem do homem é
realizar a sua função,e deve ser algo que lhe é próprio. Disso exclui-se sua
vida de nutrição e crescimento porque é algo que também está presente nas
plantas. Também se exclui a vida de percepções porque esta é comum aos
animais. Resta ao homem uma função que
não está presente nas plantas e tampouco nos animais: exercer sua atividade
racional. O exercício desta atividade é,
pois, o bem próprio do homem. O bem é,
pois, aquilo a que todas as coisas tendem, ou seja, a sua finalidade. Desse modo, pode-se inferir que há tantos bens
quantos sejam os fins existentes.
Mas o
homem somente atinge a felicidade se realizar com excelência a função que lhe é
própria. Para isso, ele precisa exercer sua atividade racional em consonância
com a virtude. Além disso, se houverem
várias virtudes, ele deve exercer tal atividade em conformidade com a melhor e
mais perfeita. Não bastasse isso, deve
sentir prazer em praticar as ações virtuosas.
Assim, a felicidade é uma atividade conforme a virtude perfeita, mas,
Aristóteles afirma que há um fim que é perseguido por ele mesmo: o sumo bem.
Trata-se de um bem absoluto e incondicional e que deve ser buscado por si
mesmo. Ele representa o final deste
encadeamento de fins. No homem, o
conceito de sumo bem é exatamente o mesmo de felicidade: ela é procurada sempre
por si mesma e nunca com vistas à outra coisa.
As palavras do dramaturgo e poeta Terêncio “Sou um homem: nada do que é humano me é
estranho”, corroboram para indicar as coisas que Aristóteles chama de próprios
da natureza humana das que estão no âmbito moral ou chamado de virtudes. Para
ele as coisas que são da natureza humana se manifestam primeiro como potência
para depois tornarem-se ação. As nossas funções biológicas seriam um exemplo.
Sobre as nossas virtudes, Aristóteles
sustenta que nenhum tipo de virtude pode ter sua origem na natureza humana.
Tanto a virtude intelectual quanto a virtude moral são desenvolvidas, sendo que
a primeira delas desenvolve-se através do ensino e a segunda desenvolve-se
através do exercício continuado. Portanto
as nossas virtudes necessitam ser adquiridas ao longo de um tempo a partir de
um aprender, ora, aprendemos a ser justos, quando mantemos relações com outras
pessoas, percebendo como elas agem com os outros ou com nós mesmos.
Aristóteles ainda faz distinção entre dois tipos de virtude: a virtude
intelectual e a virtude moral. A
primeira é desenvolvida através do ensino experiência e tempo. A segunda é adquirida pelo hábito e é nesta que
repousa o interesse da investigação aristotélica.
Uma
virtude moral, jamais pode existir em função de uma natureza humana, assim, o
ato de respirar não torna um homem bom e tampouco mau. O ato de respirar é um
comportamento natural e, portanto, caracteriza-se como um comportamento
necessário. Não é facultado ao homem
escolher entre respirar ou deixar de respirar.
Ele já nasce com mecanismos naturais que o impelem a fazê-lo e ele nada
pode fazer para mudar isso. Em contrapartida, um homem virtuoso e bom é aquele
que é dotado de virtudes morais, ou seja, um homem virtuoso é aquele que
consegue exprimir de forma “correta” seus comportamentos e ações, mesmo que ele
necessite renegar socialmente sua verdadeira essência.
Fica difícil julgar um homem como bom ou mal por
comportamentos próprios da sua na natureza humana. Por outro lado, há
comportamentos que todo homem pode manifestar ou deixar de fazê-lo. São comportamentos que não são determinados
pela natureza humana e, portanto, não se revestem do caráter de necessidade.
Sobre estes comportamentos, o homem é capaz de deliberar e de ter algum tipo de
controle. É esta categoria de comportamentos que se encontram no escopo da
moral e que caracterizam tanto a virtude moral quanto a sua oposto, o vício. O
ato de mentir não é um comportamento imposto pela natureza humana e, portanto,
não é um comportamento necessário. Um
homem pode tanto mentir quanto falar a verdade e o que ele fará dependerá de
sua própria deliberação.
Por isso para construir o conceito de virtude, Aristóteles
divide tudo aquilo que se apresenta à mente humana em três espécies de coisas:
paixões, faculdades e disposições. As paixões são todos os sentimentos que podem
aflorar em quaisquer homens. As faculdades representam as capacidades que os
homens possuem por natureza, inclusive a de sentirem as paixões. Tanto as
faculdades quanto as paixões, em si mesmas, são naturais ao homem e, portanto,
não podem ser utilizadas como critério para julgá-lo bom ou mau. Restam apenas
as disposições e é aqui que reside a virtude moral. As disposições representam estados de caráter e definem o modo como o homem utiliza suas faculdades e como ele
se relaciona com suas próprias paixões. A virtude moral pertence, pois, ao
gênero das disposições do homem.
A
virtude é um tipo de mediania porque visa o “meio-termo”. Entretanto, há dois
diferentes significados para meio-termo: o meio-termo relativo ao objeto
(métron) e o meio-termo relativo ao homem (mesótis). O primeiro significado
representa um ponto equidistante entre dois extremos e é um e o mesmo para
todos os homens (um exemplo disso é o número seis como meio-termo entre os
números dois e dez). O segundo
significado indica somente um ponto variável entre dois extremos e que pode ser
diferente para diferentes homens. Resumindo, o equilíbrio é a virtude. Com isso
a virtude moral deve ser uma disposição que vise o meio termo no que diz
respeito às paixões. Neste contexto, o vício é caracterizado tanto pela
insuficiência quanto pelo excesso de qualquer paixão. Por exemplo: o homem que
cede a todos os prazeres torna-se intemperante e aquele que evita todos eles
torna-se insensível. Por esse motivo, a
virtude reside em sentir as paixões nos momentos certos, relacionando-as aos
objetos certos, dirigidas às pessoas certas, pelo motivo certo e do modo
correto.
A busca desse equilíbrio, ou mesmo os excessos, se dão
por conta de ações voluntárias. Ora, a dor da paixão é inevitável, porém sofrer
com ela é opcional, com isso, Aristóteles faz uma distinção importante entre as
ações voluntárias e as involuntárias.
As primeiras são aquelas cujo princípio motor está dentro do próprio
sujeito da ação e as segundas são aquelas cujo princípio motor está dentro
dele.
Uma
ação involuntária nunca deverá ser alvo de louvor e tampouco de censura e,
portanto, não caracterizarão a virtude e nem o vício. Este tipo de ocorre por compulsão ou por
ignorância. Este é o caso de uma pessoa que seja levada pela força do vento ou
arrebatada por homens mais fortes que ela. Mas, há um conceito que tem muito
mais extensão do que o conceito de voluntariedade: trata- se do conceito de
escolha. Segundo Aristóteles, crianças
e animais inferiores também realizam ações voluntárias, mas não escolhas. A cólera e o apetite estão presentes até em
criaturas irracionais.
Ninguém
escolhe coisas impossíveis, mas pode desejá-las. A escolha relaciona-se, portanto, a coisas
que estão ao alcance do homem e esta distinção é feita pelo uso de sua
racionalidade. Assim, pode-se dizer que a escolha é voluntária, mas que nem
tudo o que é voluntário resulta de uma escolha. Observe-se que a escolha envolve
o uso da racionalidade enquanto uma ação simplesmente voluntária não a exige.
Disso infere-se que uma ação só é virtuosa se for realizada voluntariamente e
se for resultado de uma deliberação racional. O princípio racional é, pois,
fator indispensável para a da virtude.
Enfim, o marco da doutrina sobre virtudes defendida por
Aristóteles, se entrelaça bastante com a sua também obra sobre a felicidade. A
felicidade é o objetivo comum de todo ser humano, mas para chegá-la é
necessário utilizar de uma atividade racional para escolher o melhor caminho,
talvez o não mais fácil, porém, o mais virtuoso. E é somente através de sua
racionalidade que o homem pode se tornar virtuoso e realizar o seu fim e, como
conseqüência, atingir a felicidade.
Referência:
ARISTÓTELES. Ética e Nicômaco
A virtude e a felicidade em Aristóteles
Autor: Rui Rossi dos Santos
Psicologia de Grupo
Autor: Freud

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