
Tendo os sonhos nos
servido de protótipo das perturbações mentais narcisistas na vida normal,
tentaremos agora lançar alguma luz sobre a natureza da melancolia, comparando-a
com o afeto normal do luto. Dessa vez, porém, devemos começar por fazer uma
confissão, como advertência contra qualquer superestimação do valor de nossas
conclusões. A melancolia, cuja definição varia inclusive na psiquiatria
descritiva, assume várias formas clínicas, cujo agrupamento numa única unidade
não parece ter sido estabelecido com certeza, sendo que algumas dessas formas
sugerem afecções antes somáticas do que psicogênicas. Nosso material,
independentemente de tais impressões acessíveis a todo observador, limita-se a
um pequeno número de casos de natureza psicogênica indiscutível. Desde o
início, portanto abandonaremos toda e qualquer reivindicação à validade geral
de nossas conclusões, e nos consolaremos com a reflexão de que, com os meios de
pesquisa à nossa disposição hoje em dia, dificilmente descobriríamos alguma
coisa que não fosse típica, se não de toda uma classe de perturbações, pelo
menos de um pequeno grupo delas.
A correlação entre
a melancolia e o luto parece ser justificada pelo quadro geral dessas duas
condições. Além disso, as causas excitantes devidas a influências ambientais
são, na medida em que podemos discerni-las, as mesmas para ambas as condições.
O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma
abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o
ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências
produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas
pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora
o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para
com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e
submetê-lo a tratamento médico. Confiamos em que seja superado após certo lapso
de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em
relação a ele.
Os traços mentais
distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de
interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda
e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto
de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando
numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível
quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são
encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; afora
isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à
perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma
perda de interesse pelo mundo externo - na medida em que este não evoca esse
alguém -, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que
significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade
que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa
inibição e circunscrisão do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto,
devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E, realmente,
só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece
patológica.
Parece-nos também
uma comparação adequada chamar a disposição para o luto de ‘dolorosa’. É bem
provável que vejamos a justificação disso quando estivermos em condições de
apresentar uma caracterização da economia da dor.
Em que consiste,
portanto, o trabalho que o luto realiza? Não me parece forçado apresentá-lo da
forma que se segue. O teste da realidade revelou que o objeto amado não existe
mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com
aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível - é fato
notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem
mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena. Esta oposição pode
ser tão intensa, que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto
por intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo. Normalmente,
prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas ordens não possam ser
obedecidas de imediato. São executadas pouco a pouco, com grande dispêndio de
tempo e de energia catexial, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a
existência do objeto perdido. Cada uma das lembranças e expectativas isoladas
através das quais a libido está vinculada ao objeto é evocada e
hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relação a cada uma
delas. Por que essa transigência, pela qual o domínio da realidade se faz
fragmentariamente, deve ser tão extraordinariamente penosa, de forma alguma é
coisa fácil de explicar em termos de economia. É notável que esse penoso
desprazer seja aceito por nós como algo natural. Contudo, o fato é que, quando
o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido.
Apliquemos agora à
melancolia o que aprendemos sobre o luto. Num conjunto de casos é evidente que
a melancolia também pode constituir reação à perda de um objeto amado. Onde as
causas excitantes se mostram diferentes, pode-se reconhecer que existe uma
perda de natureza mais ideal. O objeto talvez não tenha realmente morrido, mas
tenha sido perdido enquanto objeto de amor (como no caso, por exemplo, de uma
noiva que tenha levado o fora). Ainda em outros casos nos sentimos justificados
em sustentar a crença de que uma perda dessa espécie ocorreu; não podemos,
porém, ver claramente o que foi perdido, sendo de todo razoável supor que
também o paciente não pode conscientemente receber o que perdeu. Isso,
realmente, talvez ocorra dessa forma, mesmo que o paciente esteja cônscio da
perda que deu origem à sua melancolia, mas apenas no sentido de que sabe quem
ele perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. Isso sugeriria que a
melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da
consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a
respeito da perda.
No luto,
verificamos que a inibição e a perda de interesse são plenamente explicadas
pelo trabalho do luto no qual o ego é absorvido. Na melancolia, a perda
desconhecida resultará num trabalho interno semelhante, e será, portanto,
responsável pela inibição melancólica. A diferença consiste em que a inibição
do melancólico nos parece enigmática porque não podemos ver o que é que o está
absorvendo tão completamente. O melancólico exibe ainda uma outra coisa que
está ausente no luto - uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um
empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna
pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego
para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e
moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e
punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios
parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma
mudança se tenha processado nele, mas estende sua autocrítica até o passado,
declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade
(principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar,
e - o que é psicologicamente notável - por uma superação do instinto que
compele todo ser vivo a se apegar à vida.
Seria igualmente
infrutífero, de um ponto de vista científico e terapêutico, contradizer um
paciente que faz tais acusações contra seu ego. Certamente, de alguma forma ele
deve estar com a razão, e descreve algo que é como lhe parece ser. Devemos,
portanto, confirmar de imediato, e sem reservas, algumas de suas declarações.
Ele se encontra, de fato, tão desinteressado e tão incapaz de amor e de
realização quanto afirma. Mas isso, como sabemos, é secundário; trata-se do
efeito do trabalho interno que lhe consome o ego - trabalho que, nos sendo
desconhecido, é, porém, comparável ao do luto. O paciente também nos parece
justificado em fazer outras auto-acusações; apenas, ele dispõe de uma visão
mais penetrante da verdade do que outras pessoas que não são melancólicas.
Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta,
desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido
ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que
tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando,
tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade
dessa espécie. Com efeito, não pode haver dúvida de que todo aquele que
sustenta e comunica a outros uma opinião de si mesmo como esta (opinião que
Hamlet tinha a respeito tanto de si quanto de todo mundo), está doente, quer
fale a verdade, quer se mostre mais ou menos injusto para consigo mesmo.
Tampouco é difícil ver que, até onde podemos julgar, não há correspondência
entre o grau de autodegradação e sua real justificação. Uma mulher boa, capaz e
conscienciosa, não terá palavras mais elogiosas para si mesma, durante a
melancolia, do que uma que de fato seja desprovida de valor; realmente, talvez
a primeira tenha mais probabilidades de contrair a doença do que a segunda, a
cujo respeito também nós nada teríamos a dizer de bom. Por fim, deve ocorrer-nos
que, afinal de contas, o melancólico não se comporta da mesma maneira que uma
pessoa esmagada, de uma forma normal, pelo remorso e pela auto-recriminação.
Sentimentos de vergonha diante de outras pessoas, que, mais do qualquer outra
coisa, caracterizariam essa última condição, faltam ao melancólico, ou pelo
menos não são proeminentes nele. Poder-se-ia ressaltar a presença nele de um
traço quase oposto, de uma insistente comunicabilidade, que encontra satisfação
no desmascaramento de si mesmo.
O ponto essencial,
portanto, não consiste em saber se a autodifamação aflitiva do melancólico é
correta, no sentido de que sua autocrítica esteja de acordo com a opinião de
outras pessoas. O ponto consiste, antes, em saber se ele está apresentando uma
descrição correta de sua situação psicológica. Ele perdeu seu amor-próprio e
deve ter tido boas razões para tanto. É verdade que então nos deparamos com uma
contradição que coloca um problema de difícil solução. A analogia com o luto
nos levou a concluir que ele sofrera uma perda relativa a um objeto; o que o
paciente nos diz aponta para uma perda relativa a seu ego.
Antes de passarmos
a essa contradição, detenhamo-nos um pouco no conceito que a perturbação do
melancólico oferece a respeito da constituição do ego humano. Vemos como nele
uma parte do ego se coloca contra a outra, julga-a criticamente, e, por assim
dizer, toma-a como seu objeto. Nossa desconfiança de que o agente crítico, que
aqui se separa do ego, talvez também revele sua independência em outras
circunstâncias, será confirmada ao longo de toda a observação ulterior.
Realmente, encontraremos fundamentos para distinguir esse agente do restante do
ego. Aqui, estamo-nos familiarizando com o agente comumente denominado
‘consciência’; vamos incluí-lo, juntamente com a censura da consciência e do
teste da realidade, entre as principais instituições do ego, e poderemos provar
que ela pode ficar doente por sua própria causa. No quadro clínico da
melancolia, a insatisfação com o ego constitui, por motivos de ordem moral, a
característica mais marcante. Freqüentemente, a auto-avaliação do paciente se
preocupa muito menos com a enfermidade do corpo, a feiúra ou a fraqueza, ou com
a inferioridade social; quanto a essa categoria, somente seu temor da pobreza e
as afirmações de que vai ficar pobre ocupam posição proeminente.
Há uma observação,
de modo algum difícil de ser feita, que leva à explicação da contradição
mencionada acima [no fim do penúltimo parágrafo]. Se se ouvir pacientemente as
muitas e variadas auto-acusações de um melancólico, não se poderá evitar, no
fim, a impressão de que freqüentemente as mais violentas delas dificilmente se
aplicam ao próprio paciente, mas que, com ligeiras modificações, se ajustam
realmente a outrem, a alguém que o paciente ama, amou ou deveria amar. Toda vez
que se examinam os fatos, essa conjectura é confirmada. É assim que encontramos
a chave do quadro clínico: percebemos que as auto-recriminações são
recriminações feitas a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para
o ego do próprio paciente.
A mulher que
lamenta em altos brados o fato de o marido estar preso a uma esposa
incapaz como ela, na verdade está acusando o marido de ser incapaz, não
importando o sentido que ela possa atribuir a isso. Não há por que se
surpreender com o fato de haver algumas auto-recriminações autênticas
difundidas entre as que foram transpostas. Permite-se que estas se intrometam,
de uma vez que ajudam a mascarar as outras e a tornar impossível o
reconhecimento do verdadeiro estado de coisas. Além disso, elas derivam dos
prós e dos contras do conflito amoroso que levou à perda do amor. Também o
comportamento dos pacientes, agora, se torna bem mais inteligível. Suas queixas
são realmente ‘queixumes’, no sentido antigo da palavra. Eles não se envergonham
nem se ocultam, já que tudo de desairoso que dizem sobre eles próprios
refere-se, no fundo, à outra pessoa. Além disso, estão longe de demonstrar
perante aqueles que o cercam uma atitude de humildade e submissão, única que
caberia a pessoas tão desprezíveis. Pelo contrário, tornam-se as pessoas mais
maçantes, dando sempre a impressão de que se sentem desconsideradas e de que
foram tratadas com grande injustiça. Tudo isso só é possível porque as reações
expressas em seu comportamento ainda procedem de uma constelação mental de
revolta, que, por um certo processo, passou então para o estado esmagado de
melancolia.
Não é difícil
reconstruir esse processo. Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma
ligação da libido a uma pessoa particular; então, devido a uma real
desconsideração ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relação
objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal - uma retirada da libido
desse objeto e um deslocamento da mesma para um novo -, mas algo diferente,
para cuja ocorrência várias condições parecem ser necessárias. A catexia
objetal provou ter pouco poder de resistência e foi liquidada. Mas a libido
livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali,
contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para
estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado. Assim a
sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pôde, daí por diante, ser julgado por
um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado. Dessa forma,
uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o ego e
a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do ego e o ego
enquanto alterado pela identificação.
Uma ou duas coisas
podem ser diretamente inferidas no tocante às precondições e aos efeitos de um
processo como este. Por um lado, uma forte fixação no objeto amado deve ter
estado presente; por outro, em contradição a isso, a catexia objetal deve ter
tido pouco poder de resistência. Conforme Otto Rank observou com propriedade,
essa contradição parece implicar que a escolha objetal é efetuada numa base
narcisista, de modo que a catexia objetal, ao se defrontar com obstáculos, pode
retroceder para o narcisismo. A identificação narcisista com o objeto se torna,
então, um substituto da catexia erótica, e, em conseqüência, apesar do conflito
com a pessoa amada, não é preciso renunciar à relação amorosa. Essa
substituição da identificação pelo amor objetal constitui importante mecanismo
nas afecções narcisistas; Karl Laudauer (1914), recentemente, teve ocasião de
indicá-lo no processo de recuperação num caso de esquizofrenia. Ele representa,
naturalmente, uma regressão de um tipo de escolha objetal para o
narcisismo original. Mostramos em outro ponto que a identificação é uma etapa
preliminar da escolha objetal, que é a primeira forma - e uma forma expressa de
maneira ambivalente - pela qual o ego escolhe um objeto. O ego deseja
incorporar a si esse objeto, e, em conformidade com a fase oral ou canibalista
do desenvolvimento libidinal em que se acha, deseja fazer isso devorando-o.
Abraham, sem dúvida, tem razão em atribuir a essa conexão a recusa de alimento
encontrada em formas graves de melancolia.
A conclusão que
nossa teoria exigiria - a saber, que a tendência a adoecer de melancolia (ou
parte dessa tendência) reside na predominância do tipo narcisista da escolha
objetal - infelizmente ainda não foi confirmada pela observação. Nas
observações introdutórias deste artigo, admiti que o material empírico em que
se fundamentou este estudo é insuficiente para as nossas necessidades. Se
pudéssemos presumir um acordo entre os resultados da observação e o que
inferimos, não hesitaríamos em incluir em nossa caracterização da melancolia
essa regressão da catexia objetal para a fase oral ainda narcisista da libido.
Também nas neuroses de transferência as identificações com o objeto de modo
algum são raras; na realidade, constituem um conhecido mecanismo de formação de
sintomas, especialmente na histeria. Contudo, a diferença entre a identificação
narcisista e a histérica pode residir no seguinte: ao passo que na primeira a
catexia objetal é abandonada, na segunda persiste e manifesta sua influência,
embora isso em geral esteja confinado a certas ações e inervações isoladas.
Seja como for, também nas neuroses de transferência a identificação é a
expressão da existência de algo em comum, que pode significar amor. A
identificação narcisista é a mais antiga das duas e prepara o caminho para uma
compreensão da identificação histérica, que tem sido estudada menos
profundamente.
A melancolia,
portanto, toma emprestado do luto alguns dos seus traços e, do processo de
regressão, desde a escolha objetal narcisista para o narcisismo, os outros. É
por um lado, como o luto, uma reação à perda real de um objeto amado; mas,
acima de tudo isso, é assinalada por uma determinante que se acha ausente no
luto normal ou que, se estiver presente, transforma este em luto patológico. A
perda de um objeto amoroso constitui excelente oportunidade para que a
ambivalência nas relações amorosas se faça efetiva e manifesta. Onde existe uma
disposição para a neurose obsessiva, o conflito devido à ambivalência empresta
um cunho patológico ao luto, forçando-o a expressar-se sob forma de
auto-recriminação, no sentido de que a própria pessoa enlutada é culpada pela
perda do objeto amado, isto é, que ela a desejou. Esses estados obsessivos de
depressão que se seguem à morte de uma pessoa amada revelam-nos o que o
conflito devido à ambivalência pode alcançar por si mesmo quando também não há
uma retração regressiva da libido. Na melancolia, as ocasiões que dão margem à
doença vão, em sua maior parte, além do caso nítido de uma perda por morte,
incluindo as situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento, que
podem trazer para a relação sentimentos opostos de amor e ódio, ou reforçar uma
ambivalência já existente. Esse conflito devido à ambivalência, que por vezes
surge mais de experiências reais, por vezes mais de fatores constitucionais,
não deve ser desprezado entre as precondições da melancolia. Se o amor pelo
objeto - um amor que não pode ser renunciado, embora o próprio objeto o seja -
se refugiar na identificação narcisista, então o ódio entra em ação nesse
objeto substitutivo, dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando
satisfação sádica de seu sofrimento. A autotortura na melancolia, sem dúvida
agradável, significa, do mesmo modo que o fenômeno correspondente na neurose
obsessiva, uma satisfação das tendências do sadismo e do ódio relacionadas a um
objeto, que retornaram ao próprio eu do indivíduo nas formas que vimos
examinando. Via de regra, em ambas as desordens, os pacientes ainda conseguem,
pelo caminho indireto da autopunição, vingar-se do objeto original e torturar o
ente amado através de sua doença, à qual recorrem a fim de evitar a necessidade
de expressar abertamente sua hostilidade para com ele. Afinal de contas, a
pessoa que ocasionou a desordem emocional do paciente, e na qual na doença se
centraliza, em geral se encontra eu seu ambiente imediato. A catexia erótica do
melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla vicissitude: parte
dela retrocedeu à identificação, mas a outra parte, sob a influência do
conflito devido à ‘ambivalência’, foi levada de volta à etapa de sadismo que se
acha mais próxima do conflito.
É exclusivamente
esse sadismo que soluciona o enigma da tendência ao suicídio, que torna a
melancolia tão interessante - e tão perigosa. Tão imenso é o amor de si mesmo
do ego (self-love), que chegamos a reconhecer como sendo o estado
primevo do qual provém a vida instintual, e tão vasta é a quantidade de libido
narcisista que vemos liberada no medo surgido de uma ameaça à vida, que não
podemos conceber como esse ego consente em sua própria destruição. De há muito,
é verdade, sabemos que nenhum neurótico abriga pensamentos de suicídio que não
consistam em impulsos assassinos contra outros, que ele volta contra si mesmo,
mas jamais fomos capazes de explicar que forças interagem para levar a cabo
esse propósito. A análise da melancolia mostra agora que o ego só pode se matar
se, devido ao retorno da catexia objetal, puder tratar a si mesmo como um
objeto - se for capaz de dirigir contra si mesmo a hostilidade relacionada a um
objeto, e que representa a reação original do ego para com objetos do mundo
externo. Assim, na regressão desde a escolha objetal narcisista, é verdade que
nos livramos do objeto; ele, não obstante, se revelou mais poderoso do que o
próprio ego. Nas duas situações opostas, de paixão intensa e de suicídio, o ego
é dominado pelo objeto, embora de maneiras totalmente diferentes.
Quanto ao marcante
traço particular da melancolia que mencionamos [ver em[1]], a proeminência do
medo de ficar pobre, parece plausível supor que se origina do erotismo anal que
foi arrancado de seu contexto e alterado num sentido regressivo.
A melancolia ainda
nos confronta com outros problemas, cuja resposta em parte nos escapa. O fato
de desaparecer após certo tempo, sem deixar quaisquer vestígios de grandes
alterações, é uma característica que ela compartilha com o luto. Verificamos, à
guisa de explanação [ver em [1] e [2]], que, no luto, se necessita de tempo
para que o domínio do teste da realidade seja levado a efeito em detalhe, e
que, uma vez realizado esse trabalho, o ego consegue libertar sua libido do
objeto perdido. Podemos imaginar que o ego se ocupa com um trabalho análogo no
decorrer de uma melancolia; em nenhum dos dois casos dispomos de qualquer
compreensão interna (insight) da economia do curso dos eventos. Na
melancolia, a insônia atesta a rigidez da condição, a impossibilidade de se
efetuar o retraimento geral das catexias necessário ao sono. O complexo de
melancolia se comporta como uma ferida aberta, atraindo a si as energias
catexiais - que nas neuroses de transferência denominamos de ‘anticatexias’ -
provenientes de todas as direções, e esvaziando o ego até este ficar totalmente
empobrecido. Facilmente, esse complexo pode provar ser resistente ao desejo,
por parte do ego, de dormir.
O que provavelmente
é um fator somático, fator este que não pode ser explicado psicologicamente,
torna-se visível na melhoria regular da condição, que se verifica por volta do
anoitecer. Essas considerações nos levam a perguntar se uma perda no ego,
independentemente do objeto - um golpe puramente narcisista contra o ego -, não
bastará para produzir o quadro de melancolia, e se um empobrecimento da libido
do ego, diretamente por causa de toxinas, não será capaz de produzir certas
formas da doença.
A característica
mais notável da melancolia, e aquela que mais precisa de explicação, é sua
tendência a se transformar em mania - estado este que é o oposto dela em seus
sintomas. Como sabemos, isso não acontece a toda melancolia. Alguns casos
seguem seu curso em recaídas periódicas, entre cujos intervalos sinais de mania
talvez estejam inteiramente ausentes ou sejam apenas muito leves. Outros
revelam a alteração regular de fases melancólicas e maníacas que leva à
hipótese de uma insanidade circular. Veríamo-nos tentados a considerar esses
casos como não sendo psicogênicos, se não fosse o fato de que o método
psicanalítico conseguiu chegar a uma solução e efetuar uma melhoria terapêutica
em vários casos precisamente dessa espécie. Não é apenas permissível, portanto,
mas imperioso, estender uma explanação analítica da melancolia também à mania.
Não posso prometer
que essa tentativa venha a ser inteiramente satisfatória. Mal nos leva além da
possibilidade de tomarmos nossa orientação inicial. Temos duas coisas a
empreender: a primeira é uma impressão psicanalítica; a segunda, o que talvez
possamos chamar de um tema de experiência econômica geral. A impressão que
vários investigadores psicanalíticos já puseram em palavras é que o conteúdo da
mania em nada difere do da melancolia, que ambas as desordens lutam com o mesmo
‘complexo’, mas que provavelmente, na melancolia, o ego sucumbe ao complexo, ao
passo que, na mania, domina-o ou o põe de lado. Nosso segundo indicador é
proporcionado pela observação de que todos os estados, tais como a alegria, a
exultação ou o triunfo, que nos fornecem o modelo normal para a mania, dependem
das mesmas condições econômicas. Aqui, aconteceu que, como resultado de alguma
influência, um grande dispêndio de energia psíquica, de há muito mantido ou que
ocorre habitualmente, finalmente se torna desnecessário, de modo que se
encontra disponível para numerosas aplicações e possibilidades de descarga -
quando, por exemplo, algum pobre miserável, ganhando uma grande soma de
dinheiro, fica subitamente aliviado da preocupação crônica com seu pão de cada
dia, ou quando uma longa e árdua luta se vê afinal coroada de êxito, ou quando
um homem se encontra em condições de se desfazer, de um só golpe, de alguma
compulsão opressiva, alguma posição falsa que teve de manter por muito tempo, e
assim por diante. Todas essas situações se caracterizam pela animação, pelos
sinais de descarga de uma emoção jubilosa e por maior disposição para todas as
espécies de ação - da mesma maneira que na mania, e em completo contraste com a
depressão e a inibição da melancolia. Podemos aventurar-nos a afirmar que a
mania nada mais é do que um triunfo desse tipo; só que aqui, mais uma vez,
aquilo que o ego dominou e aquilo sobre o qual está triunfando permanecem
ocultos dele. A embriaguez alcoólica, que pertence à mesma classe de estados,
pode (na medida em que é de exaltação) ser explicada da mesma maneira; aqui,
provavelmente, ocorre uma suspensão, produzida por toxinas, de dispêndios de
energia na repressão. A opinião popular gosta de presumir que uma pessoa num
estado maníaco desse tipo se deleita no movimento e na ação porque ela é muito
‘alegre’. Naturalmente, essa falsa conexão deve ser corrigida. O fato é que a
condição econômica na mente do indivíduo, mencionada acima, foi atendida, sendo
essa a razão por que ele se acha tão animado, por um lado, e tão desinibido em
sua ação, por outro.
Se reunirmos essas
duas indicações, encontraremos o seguinte. Na mania, o ego deve ter superado a
perda do objeto (ou seu luto pela perda, ou talvez o próprio objeto), e,
conseqüentemente, toda a quota de anticatexia que o penoso sofrimento da
melancolia tinha atraído para si vinda do ego e ‘vinculado’ se terá tornado
disponível [ver em [1]]. Além disso, o indivíduo maníaco demonstra claramente
sua liberação do objeto que causou seu sofrimento, procurando, como um homem
vorazmente faminto, novas catexias objetais.
Essa explicação
certamente parece plausível, mas, em primeiro lugar, é por demais idefinida, e,
em segundo, dá margem a mais novos problemas e dúvidas do que podemos
responder. Não fugiremos a um exame dos mesmos, embora não possamos esperar que
esse exame nos leve a uma compreensão nítida.
Em primeiro lugar,
também o luto normal supera a perda de objeto, e também, enquanto persiste,
absorve todas as energias do ego. Por que, então, depois de seguir seu curso,
não há, em seu caso, qualquer indício da condição econômica necessária a uma
fase de triunfo? Acho impossível responder a essa objeção diretamente. Também
chama a nossa atenção para o fato de que nem sequer conhecemos os meios
econômicos pelos quais o luto executa sua tarefa [ver em [1]]. Possivelmente,
contudo, uma conjectura nos ajudará aqui. Cada uma das lembranças e situações
de expectativa que demonstram a ligação da libido ao objeto perdido se
defrontam com o veredicto da realidade segundo o qual o objeto não mais existe;
e o ego, confrontado, por assim dizer, com a questão de saber se partilhará
desse destino, é persuadido, pela soma das satisfações narcisistas que deriva
de estar vivo, a romper sua ligação com o objeto abolido. Talvez possamos supor
que esse trabalho de rompimento seja tão lento e gradual, que, na ocasião em
que tiver sido concluído, o dispêndio de energia necessária a ele também se
tenha dissipado.
É tentador
continuar a partir dessa conjectura sobre o trabalho do luto e tentar
apresentar um relato do trabalho da melancolia. Aqui, de início, nos
defrontamos com uma incerteza. Até agora, quase não consideramos a melancolia
do ponto de vista topográfico, nem perguntamos a nós mesmos, nesse meio tempo,
em que ou entre que sistemas psíquicos o trabalho de melancolia se processa.
Que parte dos processos mentais da doença ainda se verifica em conexão com as
catexias objetais inconscientes abandonadas, e que parte em conexão com seu substituto,
por identificação, no ego?
A resposta rápida e
fácil é que ‘a apresentação (da coisa) inconsciente do objeto foi abandonada
pela libido’. Na realidade, contudo, essa apresentação é composta de
inumeráveis impressões isoladas (ou traços inconscientes delas) e essa retirada
da libido não é um processo que possa ser realizado num momento, mas deve, por
certo, como no luto, ser um processo extremamente prolongado e gradual. Se ele
começa simultaneamente em vários pontos ou se segue alguma espécie de seqüência
fixa não é fácil decidir; nas análises, torna-se freqüentemente evidente que
primeiro uma lembrança, e depois outra, é ativada, e que os lamentos que soam
sempre como os mesmos, e são tediosos em sua monotonia, procedem, não obstante,
cada vez de uma fonte inconsciente diferente. Se o objeto não possui uma tão
grande importância para o ego - importância reforçada por mil elos -, então
também sua perda não será suficiente para provocar quer o luto, quer a
melancolia. Essa característica de separar pouco a pouco a libido deve,
portanto, ser atribuída de igual modo ao luto e à melancolia, sendo
provavelmente apoiada pela mesma situação econômica e servindo aos mesmos
propósitos em ambos.
Como já vimos,
contudo [ver em [1] e segs.], a melancolia contém algo mais que o luto normal.
Na melancolia, a relação com o objeto não é simples; ela é complicada pelo
conflito devido a uma ambivalência. Esta ou é constitucional, isto é, um
elemento de toda relação amorosa formada por esse ego particular, ou provém precisamente
daquelas experiências que envolveram a ameaça da perda do objeto. Por esse
motivo, as causas excitantes da melancolia têm uma amplitude muito maior do que
as do luto, que é, na maioria das vezes, ocasionado por uma perda real do
objeto, por sua morte. Na melancolia, em conseqüência, travam-se inúmeras lutas
isoladas em torno do objeto, nas quais o ódio e o amor se digladiam; um procura
separar a libido do objeto, o outro, defender essa posição da libido contra o
assédio. A localização dessas lutas isoladas só pode ser atribuída ao sistema Ics.,
a região dos traços de memória de coisas (em contraste com as catexias
da palavra). No luto, também, os esforços para separar a libido são
envidados nesse mesmo sistema; mas nele nada impede que esses processos sigam o
caminho normal através do Pcs. até a consciência. Esse caminho, devido
talvez a um certo número de causas ou a uma combinação delas, está bloqueado
para o trabalho da melancolia. A ambivalência constitucional pertence por
natureza ao reprimido; as experiências traumáticas em relação ao objeto podem
ter ativado outro material reprimido. Assim, tudo que tem que ver com essas
lutas devidas à ambivalência permanece retirado da consciência, até que o
resultado característico da melancolia se fixe. Isso, como sabemos, consiste no
abandono, por fim, do objeto pela catexia libidinal ameaçada, só que, porém,
para recuar ao local do ego de onde tinha provindo. Dessa forma, refugiando-se
no ego, o amor escapa à extinção. Após essa regressão da libido, o processo
pode tornar-se consciente, sendo representado à consciência como um conflito
entre uma parte do ego e o agente crítico.
No trabalho da
melancolia, portanto, a consciência está cônscia de uma parte que não é
essencial, e nem sequer é uma parte à qual possamos atribuir o mérito de ter
contribuído para o término da doença. Vemos que o ego se degrada e se enfurece
contra si mesmo, e compreendemos tão pouco quanto o paciente a que é que isso
pode levar e como pode modificar-se. De forma mais imediata, podemos atribuir
tal função à parte inconsciente do trabalho, pois não é difícil perceber
uma analogia essencial entre o trabalho da melancolia e o do luto. Do mesmo
modo que o luto compele o ego a desistir do objeto, declarando-o morto e
oferecendo ao ego o incentivo de continuar a viver [ver em [1]], assim também
cada luta isolada da ambivalência distende a fixação da libido ao objeto,
depreciando-o, denegrindo-o e mesmo, por assim dizer, matando-o. É possível que
o processo no Ics. chegue a um fim, quer após a fúria ter-se dissipado,
quer após o objeto ter sido abandonado como destituído de valor. Não podemos
dizer qual dessas duas possibilidades é a regular ou a mais usual para levar a
melancolia a um fim, nem que influência esse término exerce sobre o futuro
curso do caso. O ego pode derivar daí a satisfação de saber que é o melhor dos
dois, que é superior ao objeto.
Mesmo que aceitemos
esse conceito a respeito do trabalho da melancolia, ele ainda não proporciona
uma explanação do único ponto que nos interessa esclarecer. Esperávamos que a
condição econômica para o surgimento da mania, após a melancolia ter seguido o
seu curso, fosse encontrada na ambivalência que domina essa afecção, e nisso
encontramos um apoio proveniente de analogias em vários outros campos. Mas
existe um fato diante do qual essa expectativa tem de se render. Das três
precondições da melancolia - perda do objeto, ambivalência e regressão da
libido ao ego -, as duas primeiras também se encontram nas auto-recriminações
obsessivas que surgem depois da ocorrência de uma morte. Indubitavelmente,
nesses caso é a ambivalência que constitui a força motora do conflito,
revelando-nos a observação que, depois de determinado o conflito, nada mais
resta que se assemelhe ao triunfo de um estado de mente maníaco. Somos levados
assim a considerar o terceiro fator como o único responsável pelo resultado. O
acúmulo de catexia que, de início, fica vinculado e, terminado o trabalho da
melancolia, se torna livre, fazendo com que a mania seja possível, deve ser ligado
à regressão da libido ao narcisismo. O conflito dentro do ego, que a melancolia
substitui pela luta pelo objeto, deve atuar como uma ferida dolorosa que exige
uma anticatexia extraordinariamente elevada. - Aqui, porém, mais uma vez, será
bom parar e adiar qualquer outra explicação da mania até que tenhamos obtido
certa compreensão interna (insight) da natureza econômica, primeiro da
dor física, depois da dor mental análoga a ela. Conforme já sabemos, a
interdependência dos complicados problemas da mente nos força a interromper
qualquer indagação antes que esta esteja concluída - até que o resultado de uma
outra indagação possa vir em sua ajuda.