Direitos Reservados - LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998, Citar fontes

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Psicologia nas Escolas


 Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados (CEC) realizou nesta quinta-feira (6/12), audiência pública para discutir o Projeto de Lei 3688/00, que exige a prestação de serviços de psicologia e serviço social na rede pública de educação básica. O objetivo foi esclarecer os parlamentares sobre as necessidades e benefícios para a população de se contar com uma equipe multidisciplinar nessas instituições.
O PL garante que esses profissionais tenham a possibilidade de disponibilizar serviços psicológicos para desenvolver ações voltadas para a melhor qualidade do processo de ensino-aprendizado, formação integral dos educandos e mediação das relações institucionais com a participação da comunidade escolar. O substitutivo, que inclui equipes multiprofissionais, foi uma contribuição do Conselho Federal de Psicologia (CFP), da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (Abrapee) e da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (Abep).
Segundo a deputada e relatora do PL, Keiko Ota (PSB/SP), a aprovação do substitutivo é importante para inserir psicólogos (as) e assistentes sociais nas redes públicas de ensino, pois eles serão capazes de auxiliar na formação sociocultural dos jovens. De acordo com ela, dados do Mapa da Violência 2012, lançado na semana passada, indicam que, nos últimos 30 anos, 608 mil jovens foram mortos por motivos evitáveis, como homicídios, suicídios e acidentes. “Equipes multiprofissionais nas escolas podem mudar este cenário”, completou. Segundo a parlamentar, a proposta deverá ser votada até o final deste ano pela CEC.
Presente à audiência, o conselheiro do CFP Celso Tondin destacou que o PL vai incidir sobre as políticas públicas na ótica do compromisso social. “As equipes devem ter uma ação voltada ao processo de ensino e aprendizagem dentro das escolas, mediando tensões e conflitos nas relações, na promoção da autonomia e superação das diversidades tendo em vista os processos subjetivos e psicossociais”, disse. O conselheiro solicitou à deputada seu parecer sobre o PL e reiterou que o CFP está à disposição para dar subsídios técnicos, já que foi um dos autores do substitutivo, aprovado no Seminário Nacional do Ano Temático da Psicologia na Educação, em 2010.
O conselheiro lembrou, ainda, que o substitutivo visa garantir os direitos das crianças e dos adolescentes.  Segundo Tondin, o PL faz relação ao que o Ministério da Educação aborda na questão da educação integral, com o Programa Mais Educação, no âmbito do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). “A iniciativa define as parcerias intersetoriais e intergovernamentais para ampliar os tempos e os espaços de formação das crianças, adolescentes e jovens para que a escola pública seja complementada pelos processos de permanência e aprendizagem”, ressaltou. Na perspectiva da educação integral, Tondin considerou que o serviço social e a Psicologia podem contribuir na implementação das políticas públicas.
A representante da Abrapee, Marilene Proença, acredita que o projeto de lei irá garantir que as contribuições da Psicologia aconteçam no interior do processo educativo. “Lutamos por uma escola democrática de qualidade, com o direito de cidadania às crianças e adolescentes e a todos aqueles que compõem o quadro educacional. Queremos romper com a tradição de crianças e adolescentes que não vão à escola e precisamos de um PL que garanta este compromisso profissional”, defendeu.
Para que os jovens se mantenham nas redes de ensino, é preciso fazer das instituições locais de processo e desenvolvimento de crianças e adolescentes, na opinião da professora da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Raquel Guzzo. “O Brasil se vangloria em colocar quase 100% de suas crianças no ensino fundamental, mas não conta que menos de 11% delas não conseguem continuar no sistema educacional brasileiro por razões psicológicas ou socioeconômicas. Precisamos de políticas que mudem essa porcentagem, e o PL será fundamental nisso”, considerou.
Em relação à assistência social, a conselheira do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), Maria Elisa dos Santos, acredita que a atuação desses profissionais garante a igualdade de condições de acesso às escolas, articulando famílias e comunidades por meio de uma gestão democrática de todos os protagonistas que atuam na educação. “Queremos contribuir para que todos permaneçam na escola. Esta é a nossa tarefa: ajudar a promover a educação auxiliando na redução da marginalidade e subalternidade destes indivíduos”, afirmou.
Regulamentação e desafios
Sem a regulamentação, não existem cargos específicos em concursos públicos e muitos profissionais acabam atuando nas redes de ensino de maneira informal, com salários baixos. “Qualquer mudança de gestão muda o profissional de setor porque não existe um concurso com função específica para psicólogos (as) e assistentes sociais. Como se trata de um profissional emprestado, ele vive essa insegurança no ambiente de trabalho”, ressaltou Marilene Proença.
Sobre essas contratações, o conselheiro Celso Tondin alertou que elas também ocorrem com profissionais contratados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo Sistema Único de Assistência Social (Suas). “Isso cria uma série de dificuldades porque nem todas as estratégias de educação estão contempladas”, constatou.
Um desafio para a atuação dos profissionais nas redes de ensino colocado por Tondin, e endossado pelos outros participantes, foi a formação do psicólogo (a) para lidar com demandas escolares expressas por aqueles interagem na rede de educação. “Temos um desafio para a formação, de modo que o psicólogo (a) possa atuar na perspectiva institucional sem enxergar o aluno como um problema individual, numa perspectiva muitas vezes patologizante”, disse.
Para qualificar os profissionais da Psicologia, os palestrantes concordam que deverá haver incentivo e financiamento por parte do Governo Federal. “Temos a luta de muitas entidades para termos acesso a 10% do PIB nacional, além disso, a presidenta Dilma Rousseff acabou de liberar orçamentos dos royalties do pré-sal. Temos onde buscar fontes de financiamento”, completou Tondin.
De autoria do ex-deputado José Carlos Elias (PTB/ES), o PL 3688/2000 está sendo relatado na Comissão de Educação pela deputada Keiko Ota (PSB/SP), que solicitou, juntamente com a deputada Érika Kokay (PT/DF), a realização da audiência. Quando for aprovado, o PL será apreciado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara. Assim que passar por todas as Comissões e pelo Plenário, o PL irá para a sanção da presidenta Dilma Rousseff.
FONTE: www.pol.org.br

Feliz Natal!!

A todos que prestigiam o meu blog, FELIZ NATAL!!!!! Muitas coisas boas!!!

Valores

Programa Conexão Futura do ano de 2011, muito bom o programa, vale para quem gosta de uma discussão bem elaborada!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Curso nas Férias!!!



Para maiores informações:
 Siga-nos!

Luto e Melancolia - 1917




Tendo os sonhos nos servido de protótipo das perturbações mentais narcisistas na vida normal, tentaremos agora lançar alguma luz sobre a natureza da melancolia, comparando-a com o afeto normal do luto. Dessa vez, porém, devemos começar por fazer uma confissão, como advertência contra qualquer superestimação do valor de nossas conclusões. A melancolia, cuja definição varia inclusive na psiquiatria descritiva, assume várias formas clínicas, cujo agrupamento numa única unidade não parece ter sido estabelecido com certeza, sendo que algumas dessas formas sugerem afecções antes somáticas do que psicogênicas. Nosso material, independentemente de tais impressões acessíveis a todo observador, limita-se a um pequeno número de casos de natureza psicogênica indiscutível. Desde o início, portanto abandonaremos toda e qualquer reivindicação à validade geral de nossas conclusões, e nos consolaremos com a reflexão de que, com os meios de pesquisa à nossa disposição hoje em dia, dificilmente descobriríamos alguma coisa que não fosse típica, se não de toda uma classe de perturbações, pelo menos de um pequeno grupo delas.
A correlação entre a melancolia e o luto parece ser justificada pelo quadro geral dessas duas condições. Além disso, as causas excitantes devidas a influências ambientais são, na medida em que podemos discerni-las, as mesmas para ambas as condições. O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos em que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele.
Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; afora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo - na medida em que este não evoca esse alguém -, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrisão do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E, realmente, só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece patológica.
Parece-nos também uma comparação adequada chamar a disposição para o luto de ‘dolorosa’. É bem provável que vejamos a justificação disso quando estivermos em condições de apresentar uma caracterização da economia da dor.
Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto realiza? Não me parece forçado apresentá-lo da forma que se segue. O teste da realidade revelou que o objeto amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível - é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena. Esta oposição pode ser tão intensa, que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo. Normalmente, prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas ordens não possam ser obedecidas de imediato. São executadas pouco a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência do objeto perdido. Cada uma das lembranças e expectativas isoladas através das quais a libido está vinculada ao objeto é evocada e hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em relação a cada uma delas. Por que essa transigência, pela qual o domínio da realidade se faz fragmentariamente, deve ser tão extraordinariamente penosa, de forma alguma é coisa fácil de explicar em termos de economia. É notável que esse penoso desprazer seja aceito por nós como algo natural. Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido.
Apliquemos agora à melancolia o que aprendemos sobre o luto. Num conjunto de casos é evidente que a melancolia também pode constituir reação à perda de um objeto amado. Onde as causas excitantes se mostram diferentes, pode-se reconhecer que existe uma perda de natureza mais ideal. O objeto talvez não tenha realmente morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor (como no caso, por exemplo, de uma noiva que tenha levado o fora). Ainda em outros casos nos sentimos justificados em sustentar a crença de que uma perda dessa espécie ocorreu; não podemos, porém, ver claramente o que foi perdido, sendo de todo razoável supor que também o paciente não pode conscientemente receber o que perdeu. Isso, realmente, talvez ocorra dessa forma, mesmo que o paciente esteja cônscio da perda que deu origem à sua melancolia, mas apenas no sentido de que sabe quem ele perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. Isso sugeriria que a melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda.
No luto, verificamos que a inibição e a perda de interesse são plenamente explicadas pelo trabalho do luto no qual o ego é absorvido. Na melancolia, a perda desconhecida resultará num trabalho interno semelhante, e será, portanto, responsável pela inibição melancólica. A diferença consiste em que a inibição do melancólico nos parece enigmática porque não podemos ver o que é que o está absorvendo tão completamente. O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto - uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado nele, mas estende sua autocrítica até o passado, declarando que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e - o que é psicologicamente notável - por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida.
Seria igualmente infrutífero, de um ponto de vista científico e terapêutico, contradizer um paciente que faz tais acusações contra seu ego. Certamente, de alguma forma ele deve estar com a razão, e descreve algo que é como lhe parece ser. Devemos, portanto, confirmar de imediato, e sem reservas, algumas de suas declarações. Ele se encontra, de fato, tão desinteressado e tão incapaz de amor e de realização quanto afirma. Mas isso, como sabemos, é secundário; trata-se do efeito do trabalho interno que lhe consome o ego - trabalho que, nos sendo desconhecido, é, porém, comparável ao do luto. O paciente também nos parece justificado em fazer outras auto-acusações; apenas, ele dispõe de uma visão mais penetrante da verdade do que outras pessoas que não são melancólicas. Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer para ter acesso a uma verdade dessa espécie. Com efeito, não pode haver dúvida de que todo aquele que sustenta e comunica a outros uma opinião de si mesmo como esta (opinião que Hamlet tinha a respeito tanto de si quanto de todo mundo), está doente, quer fale a verdade, quer se mostre mais ou menos injusto para consigo mesmo. Tampouco é difícil ver que, até onde podemos julgar, não há correspondência entre o grau de autodegradação e sua real justificação. Uma mulher boa, capaz e conscienciosa, não terá palavras mais elogiosas para si mesma, durante a melancolia, do que uma que de fato seja desprovida de valor; realmente, talvez a primeira tenha mais probabilidades de contrair a doença do que a segunda, a cujo respeito também nós nada teríamos a dizer de bom. Por fim, deve ocorrer-nos que, afinal de contas, o melancólico não se comporta da mesma maneira que uma pessoa esmagada, de uma forma normal, pelo remorso e pela auto-recriminação. Sentimentos de vergonha diante de outras pessoas, que, mais do qualquer outra coisa, caracterizariam essa última condição, faltam ao melancólico, ou pelo menos não são proeminentes nele. Poder-se-ia ressaltar a presença nele de um traço quase oposto, de uma insistente comunicabilidade, que encontra satisfação no desmascaramento de si mesmo.
O ponto essencial, portanto, não consiste em saber se a autodifamação aflitiva do melancólico é correta, no sentido de que sua autocrítica esteja de acordo com a opinião de outras pessoas. O ponto consiste, antes, em saber se ele está apresentando uma descrição correta de sua situação psicológica. Ele perdeu seu amor-próprio e deve ter tido boas razões para tanto. É verdade que então nos deparamos com uma contradição que coloca um problema de difícil solução. A analogia com o luto nos levou a concluir que ele sofrera uma perda relativa a um objeto; o que o paciente nos diz aponta para uma perda relativa a seu ego.
Antes de passarmos a essa contradição, detenhamo-nos um pouco no conceito que a perturbação do melancólico oferece a respeito da constituição do ego humano. Vemos como nele uma parte do ego se coloca contra a outra, julga-a criticamente, e, por assim dizer, toma-a como seu objeto. Nossa desconfiança de que o agente crítico, que aqui se separa do ego, talvez também revele sua independência em outras circunstâncias, será confirmada ao longo de toda a observação ulterior. Realmente, encontraremos fundamentos para distinguir esse agente do restante do ego. Aqui, estamo-nos familiarizando com o agente comumente denominado ‘consciência’; vamos incluí-lo, juntamente com a censura da consciência e do teste da realidade, entre as principais instituições do ego, e poderemos provar que ela pode ficar doente por sua própria causa. No quadro clínico da melancolia, a insatisfação com o ego constitui, por motivos de ordem moral, a característica mais marcante. Freqüentemente, a auto-avaliação do paciente se preocupa muito menos com a enfermidade do corpo, a feiúra ou a fraqueza, ou com a inferioridade social; quanto a essa categoria, somente seu temor da pobreza e as afirmações de que vai ficar pobre ocupam posição proeminente.
Há uma observação, de modo algum difícil de ser feita, que leva à explicação da contradição mencionada acima [no fim do penúltimo parágrafo]. Se se ouvir pacientemente as muitas e variadas auto-acusações de um melancólico, não se poderá evitar, no fim, a impressão de que freqüentemente as mais violentas delas dificilmente se aplicam ao próprio paciente, mas que, com ligeiras modificações, se ajustam realmente a outrem, a alguém que o paciente ama, amou ou deveria amar. Toda vez que se examinam os fatos, essa conjectura é confirmada. É assim que encontramos a chave do quadro clínico: percebemos que as auto-recriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente.
A mulher que lamenta em altos brados o fato de o marido estar preso a uma esposa incapaz como ela, na verdade está acusando o marido de ser incapaz, não importando o sentido que ela possa atribuir a isso. Não há por que se surpreender com o fato de haver algumas auto-recriminações autênticas difundidas entre as que foram transpostas. Permite-se que estas se intrometam, de uma vez que ajudam a mascarar as outras e a tornar impossível o reconhecimento do verdadeiro estado de coisas. Além disso, elas derivam dos prós e dos contras do conflito amoroso que levou à perda do amor. Também o comportamento dos pacientes, agora, se torna bem mais inteligível. Suas queixas são realmente ‘queixumes’, no sentido antigo da palavra. Eles não se envergonham nem se ocultam, já que tudo de desairoso que dizem sobre eles próprios refere-se, no fundo, à outra pessoa. Além disso, estão longe de demonstrar perante aqueles que o cercam uma atitude de humildade e submissão, única que caberia a pessoas tão desprezíveis. Pelo contrário, tornam-se as pessoas mais maçantes, dando sempre a impressão de que se sentem desconsideradas e de que foram tratadas com grande injustiça. Tudo isso só é possível porque as reações expressas em seu comportamento ainda procedem de uma constelação mental de revolta, que, por um certo processo, passou então para o estado esmagado de melancolia.
Não é difícil reconstruir esse processo. Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a uma pessoa particular; então, devido a uma real desconsideração ou desapontamento proveniente da pessoa amada, a relação objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal - uma retirada da libido desse objeto e um deslocamento da mesma para um novo -, mas algo diferente, para cuja ocorrência várias condições parecem ser necessárias. A catexia objetal provou ter pouco poder de resistência e foi liquidada. Mas a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali, contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer uma identificação do ego com o objeto abandonado. Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pôde, daí por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto abandonado. Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do ego e o ego enquanto alterado pela identificação.
Uma ou duas coisas podem ser diretamente inferidas no tocante às precondições e aos efeitos de um processo como este. Por um lado, uma forte fixação no objeto amado deve ter estado presente; por outro, em contradição a isso, a catexia objetal deve ter tido pouco poder de resistência. Conforme Otto Rank observou com propriedade, essa contradição parece implicar que a escolha objetal é efetuada numa base narcisista, de modo que a catexia objetal, ao se defrontar com obstáculos, pode retroceder para o narcisismo. A identificação narcisista com o objeto se torna, então, um substituto da catexia erótica, e, em conseqüência, apesar do conflito com a pessoa amada, não é preciso renunciar à relação amorosa. Essa substituição da identificação pelo amor objetal constitui importante mecanismo nas afecções narcisistas; Karl Laudauer (1914), recentemente, teve ocasião de indicá-lo no processo de recuperação num caso de esquizofrenia. Ele representa, naturalmente, uma regressão de um tipo de escolha objetal para o narcisismo original. Mostramos em outro ponto que a identificação é uma etapa preliminar da escolha objetal, que é a primeira forma - e uma forma expressa de maneira ambivalente - pela qual o ego escolhe um objeto. O ego deseja incorporar a si esse objeto, e, em conformidade com a fase oral ou canibalista do desenvolvimento libidinal em que se acha, deseja fazer isso devorando-o. Abraham, sem dúvida, tem razão em atribuir a essa conexão a recusa de alimento encontrada em formas graves de melancolia.
A conclusão que nossa teoria exigiria - a saber, que a tendência a adoecer de melancolia (ou parte dessa tendência) reside na predominância do tipo narcisista da escolha objetal - infelizmente ainda não foi confirmada pela observação. Nas observações introdutórias deste artigo, admiti que o material empírico em que se fundamentou este estudo é insuficiente para as nossas necessidades. Se pudéssemos presumir um acordo entre os resultados da observação e o que inferimos, não hesitaríamos em incluir em nossa caracterização da melancolia essa regressão da catexia objetal para a fase oral ainda narcisista da libido. Também nas neuroses de transferência as identificações com o objeto de modo algum são raras; na realidade, constituem um conhecido mecanismo de formação de sintomas, especialmente na histeria. Contudo, a diferença entre a identificação narcisista e a histérica pode residir no seguinte: ao passo que na primeira a catexia objetal é abandonada, na segunda persiste e manifesta sua influência, embora isso em geral esteja confinado a certas ações e inervações isoladas. Seja como for, também nas neuroses de transferência a identificação é a expressão da existência de algo em comum, que pode significar amor. A identificação narcisista é a mais antiga das duas e prepara o caminho para uma compreensão da identificação histérica, que tem sido estudada menos profundamente.
A melancolia, portanto, toma emprestado do luto alguns dos seus traços e, do processo de regressão, desde a escolha objetal narcisista para o narcisismo, os outros. É por um lado, como o luto, uma reação à perda real de um objeto amado; mas, acima de tudo isso, é assinalada por uma determinante que se acha ausente no luto normal ou que, se estiver presente, transforma este em luto patológico. A perda de um objeto amoroso constitui excelente oportunidade para que a ambivalência nas relações amorosas se faça efetiva e manifesta. Onde existe uma disposição para a neurose obsessiva, o conflito devido à ambivalência empresta um cunho patológico ao luto, forçando-o a expressar-se sob forma de auto-recriminação, no sentido de que a própria pessoa enlutada é culpada pela perda do objeto amado, isto é, que ela a desejou. Esses estados obsessivos de depressão que se seguem à morte de uma pessoa amada revelam-nos o que o conflito devido à ambivalência pode alcançar por si mesmo quando também não há uma retração regressiva da libido. Na melancolia, as ocasiões que dão margem à doença vão, em sua maior parte, além do caso nítido de uma perda por morte, incluindo as situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento, que podem trazer para a relação sentimentos opostos de amor e ódio, ou reforçar uma ambivalência já existente. Esse conflito devido à ambivalência, que por vezes surge mais de experiências reais, por vezes mais de fatores constitucionais, não deve ser desprezado entre as precondições da melancolia. Se o amor pelo objeto - um amor que não pode ser renunciado, embora o próprio objeto o seja - se refugiar na identificação narcisista, então o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo, dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. A autotortura na melancolia, sem dúvida agradável, significa, do mesmo modo que o fenômeno correspondente na neurose obsessiva, uma satisfação das tendências do sadismo e do ódio relacionadas a um objeto, que retornaram ao próprio eu do indivíduo nas formas que vimos examinando. Via de regra, em ambas as desordens, os pacientes ainda conseguem, pelo caminho indireto da autopunição, vingar-se do objeto original e torturar o ente amado através de sua doença, à qual recorrem a fim de evitar a necessidade de expressar abertamente sua hostilidade para com ele. Afinal de contas, a pessoa que ocasionou a desordem emocional do paciente, e na qual na doença se centraliza, em geral se encontra eu seu ambiente imediato. A catexia erótica do melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma dupla vicissitude: parte dela retrocedeu à identificação, mas a outra parte, sob a influência do conflito devido à ‘ambivalência’, foi levada de volta à etapa de sadismo que se acha mais próxima do conflito.
É exclusivamente esse sadismo que soluciona o enigma da tendência ao suicídio, que torna a melancolia tão interessante - e tão perigosa. Tão imenso é o amor de si mesmo do ego (self-love), que chegamos a reconhecer como sendo o estado primevo do qual provém a vida instintual, e tão vasta é a quantidade de libido narcisista que vemos liberada no medo surgido de uma ameaça à vida, que não podemos conceber como esse ego consente em sua própria destruição. De há muito, é verdade, sabemos que nenhum neurótico abriga pensamentos de suicídio que não consistam em impulsos assassinos contra outros, que ele volta contra si mesmo, mas jamais fomos capazes de explicar que forças interagem para levar a cabo esse propósito. A análise da melancolia mostra agora que o ego só pode se matar se, devido ao retorno da catexia objetal, puder tratar a si mesmo como um objeto - se for capaz de dirigir contra si mesmo a hostilidade relacionada a um objeto, e que representa a reação original do ego para com objetos do mundo externo. Assim, na regressão desde a escolha objetal narcisista, é verdade que nos livramos do objeto; ele, não obstante, se revelou mais poderoso do que o próprio ego. Nas duas situações opostas, de paixão intensa e de suicídio, o ego é dominado pelo objeto, embora de maneiras totalmente diferentes.

Quanto ao marcante traço particular da melancolia que mencionamos [ver em[1]], a proeminência do medo de ficar pobre, parece plausível supor que se origina do erotismo anal que foi arrancado de seu contexto e alterado num sentido regressivo.
A melancolia ainda nos confronta com outros problemas, cuja resposta em parte nos escapa. O fato de desaparecer após certo tempo, sem deixar quaisquer vestígios de grandes alterações, é uma característica que ela compartilha com o luto. Verificamos, à guisa de explanação [ver em [1] e [2]], que, no luto, se necessita de tempo para que o domínio do teste da realidade seja levado a efeito em detalhe, e que, uma vez realizado esse trabalho, o ego consegue libertar sua libido do objeto perdido. Podemos imaginar que o ego se ocupa com um trabalho análogo no decorrer de uma melancolia; em nenhum dos dois casos dispomos de qualquer compreensão interna (insight) da economia do curso dos eventos. Na melancolia, a insônia atesta a rigidez da condição, a impossibilidade de se efetuar o retraimento geral das catexias necessário ao sono. O complexo de melancolia se comporta como uma ferida aberta, atraindo a si as energias catexiais - que nas neuroses de transferência denominamos de ‘anticatexias’ - provenientes de todas as direções, e esvaziando o ego até este ficar totalmente empobrecido. Facilmente, esse complexo pode provar ser resistente ao desejo, por parte do ego, de dormir.
O que provavelmente é um fator somático, fator este que não pode ser explicado psicologicamente, torna-se visível na melhoria regular da condição, que se verifica por volta do anoitecer. Essas considerações nos levam a perguntar se uma perda no ego, independentemente do objeto - um golpe puramente narcisista contra o ego -, não bastará para produzir o quadro de melancolia, e se um empobrecimento da libido do ego, diretamente por causa de toxinas, não será capaz de produzir certas formas da doença.
A característica mais notável da melancolia, e aquela que mais precisa de explicação, é sua tendência a se transformar em mania - estado este que é o oposto dela em seus sintomas. Como sabemos, isso não acontece a toda melancolia. Alguns casos seguem seu curso em recaídas periódicas, entre cujos intervalos sinais de mania talvez estejam inteiramente ausentes ou sejam apenas muito leves. Outros revelam a alteração regular de fases melancólicas e maníacas que leva à hipótese de uma insanidade circular. Veríamo-nos tentados a considerar esses casos como não sendo psicogênicos, se não fosse o fato de que o método psicanalítico conseguiu chegar a uma solução e efetuar uma melhoria terapêutica em vários casos precisamente dessa espécie. Não é apenas permissível, portanto, mas imperioso, estender uma explanação analítica da melancolia também à mania.
Não posso prometer que essa tentativa venha a ser inteiramente satisfatória. Mal nos leva além da possibilidade de tomarmos nossa orientação inicial. Temos duas coisas a empreender: a primeira é uma impressão psicanalítica; a segunda, o que talvez possamos chamar de um tema de experiência econômica geral. A impressão que vários investigadores psicanalíticos já puseram em palavras é que o conteúdo da mania em nada difere do da melancolia, que ambas as desordens lutam com o mesmo ‘complexo’, mas que provavelmente, na melancolia, o ego sucumbe ao complexo, ao passo que, na mania, domina-o ou o põe de lado. Nosso segundo indicador é proporcionado pela observação de que todos os estados, tais como a alegria, a exultação ou o triunfo, que nos fornecem o modelo normal para a mania, dependem das mesmas condições econômicas. Aqui, aconteceu que, como resultado de alguma influência, um grande dispêndio de energia psíquica, de há muito mantido ou que ocorre habitualmente, finalmente se torna desnecessário, de modo que se encontra disponível para numerosas aplicações e possibilidades de descarga - quando, por exemplo, algum pobre miserável, ganhando uma grande soma de dinheiro, fica subitamente aliviado da preocupação crônica com seu pão de cada dia, ou quando uma longa e árdua luta se vê afinal coroada de êxito, ou quando um homem se encontra em condições de se desfazer, de um só golpe, de alguma compulsão opressiva, alguma posição falsa que teve de manter por muito tempo, e assim por diante. Todas essas situações se caracterizam pela animação, pelos sinais de descarga de uma emoção jubilosa e por maior disposição para todas as espécies de ação - da mesma maneira que na mania, e em completo contraste com a depressão e a inibição da melancolia. Podemos aventurar-nos a afirmar que a mania nada mais é do que um triunfo desse tipo; só que aqui, mais uma vez, aquilo que o ego dominou e aquilo sobre o qual está triunfando permanecem ocultos dele. A embriaguez alcoólica, que pertence à mesma classe de estados, pode (na medida em que é de exaltação) ser explicada da mesma maneira; aqui, provavelmente, ocorre uma suspensão, produzida por toxinas, de dispêndios de energia na repressão. A opinião popular gosta de presumir que uma pessoa num estado maníaco desse tipo se deleita no movimento e na ação porque ela é muito ‘alegre’. Naturalmente, essa falsa conexão deve ser corrigida. O fato é que a condição econômica na mente do indivíduo, mencionada acima, foi atendida, sendo essa a razão por que ele se acha tão animado, por um lado, e tão desinibido em sua ação, por outro.
Se reunirmos essas duas indicações, encontraremos o seguinte. Na mania, o ego deve ter superado a perda do objeto (ou seu luto pela perda, ou talvez o próprio objeto), e, conseqüentemente, toda a quota de anticatexia que o penoso sofrimento da melancolia tinha atraído para si vinda do ego e ‘vinculado’ se terá tornado disponível [ver em [1]]. Além disso, o indivíduo maníaco demonstra claramente sua liberação do objeto que causou seu sofrimento, procurando, como um homem vorazmente faminto, novas catexias objetais.
Essa explicação certamente parece plausível, mas, em primeiro lugar, é por demais idefinida, e, em segundo, dá margem a mais novos problemas e dúvidas do que podemos responder. Não fugiremos a um exame dos mesmos, embora não possamos esperar que esse exame nos leve a uma compreensão nítida.
Em primeiro lugar, também o luto normal supera a perda de objeto, e também, enquanto persiste, absorve todas as energias do ego. Por que, então, depois de seguir seu curso, não há, em seu caso, qualquer indício da condição econômica necessária a uma fase de triunfo? Acho impossível responder a essa objeção diretamente. Também chama a nossa atenção para o fato de que nem sequer conhecemos os meios econômicos pelos quais o luto executa sua tarefa [ver em [1]]. Possivelmente, contudo, uma conjectura nos ajudará aqui. Cada uma das lembranças e situações de expectativa que demonstram a ligação da libido ao objeto perdido se defrontam com o veredicto da realidade segundo o qual o objeto não mais existe; e o ego, confrontado, por assim dizer, com a questão de saber se partilhará desse destino, é persuadido, pela soma das satisfações narcisistas que deriva de estar vivo, a romper sua ligação com o objeto abolido. Talvez possamos supor que esse trabalho de rompimento seja tão lento e gradual, que, na ocasião em que tiver sido concluído, o dispêndio de energia necessária a ele também se tenha dissipado.
É tentador continuar a partir dessa conjectura sobre o trabalho do luto e tentar apresentar um relato do trabalho da melancolia. Aqui, de início, nos defrontamos com uma incerteza. Até agora, quase não consideramos a melancolia do ponto de vista topográfico, nem perguntamos a nós mesmos, nesse meio tempo, em que ou entre que sistemas psíquicos o trabalho de melancolia se processa. Que parte dos processos mentais da doença ainda se verifica em conexão com as catexias objetais inconscientes abandonadas, e que parte em conexão com seu substituto, por identificação, no ego?
A resposta rápida e fácil é que ‘a apresentação (da coisa) inconsciente do objeto foi abandonada pela libido’. Na realidade, contudo, essa apresentação é composta de inumeráveis impressões isoladas (ou traços inconscientes delas) e essa retirada da libido não é um processo que possa ser realizado num momento, mas deve, por certo, como no luto, ser um processo extremamente prolongado e gradual. Se ele começa simultaneamente em vários pontos ou se segue alguma espécie de seqüência fixa não é fácil decidir; nas análises, torna-se freqüentemente evidente que primeiro uma lembrança, e depois outra, é ativada, e que os lamentos que soam sempre como os mesmos, e são tediosos em sua monotonia, procedem, não obstante, cada vez de uma fonte inconsciente diferente. Se o objeto não possui uma tão grande importância para o ego - importância reforçada por mil elos -, então também sua perda não será suficiente para provocar quer o luto, quer a melancolia. Essa característica de separar pouco a pouco a libido deve, portanto, ser atribuída de igual modo ao luto e à melancolia, sendo provavelmente apoiada pela mesma situação econômica e servindo aos mesmos propósitos em ambos.
Como já vimos, contudo [ver em [1] e segs.], a melancolia contém algo mais que o luto normal. Na melancolia, a relação com o objeto não é simples; ela é complicada pelo conflito devido a uma ambivalência. Esta ou é constitucional, isto é, um elemento de toda relação amorosa formada por esse ego particular, ou provém precisamente daquelas experiências que envolveram a ameaça da perda do objeto. Por esse motivo, as causas excitantes da melancolia têm uma amplitude muito maior do que as do luto, que é, na maioria das vezes, ocasionado por uma perda real do objeto, por sua morte. Na melancolia, em conseqüência, travam-se inúmeras lutas isoladas em torno do objeto, nas quais o ódio e o amor se digladiam; um procura separar a libido do objeto, o outro, defender essa posição da libido contra o assédio. A localização dessas lutas isoladas só pode ser atribuída ao sistema Ics., a região dos traços de memória de coisas (em contraste com as catexias da palavra). No luto, também, os esforços para separar a libido são envidados nesse mesmo sistema; mas nele nada impede que esses processos sigam o caminho normal através do Pcs. até a consciência. Esse caminho, devido talvez a um certo número de causas ou a uma combinação delas, está bloqueado para o trabalho da melancolia. A ambivalência constitucional pertence por natureza ao reprimido; as experiências traumáticas em relação ao objeto podem ter ativado outro material reprimido. Assim, tudo que tem que ver com essas lutas devidas à ambivalência permanece retirado da consciência, até que o resultado característico da melancolia se fixe. Isso, como sabemos, consiste no abandono, por fim, do objeto pela catexia libidinal ameaçada, só que, porém, para recuar ao local do ego de onde tinha provindo. Dessa forma, refugiando-se no ego, o amor escapa à extinção. Após essa regressão da libido, o processo pode tornar-se consciente, sendo representado à consciência como um conflito entre uma parte do ego e o agente crítico.
No trabalho da melancolia, portanto, a consciência está cônscia de uma parte que não é essencial, e nem sequer é uma parte à qual possamos atribuir o mérito de ter contribuído para o término da doença. Vemos que o ego se degrada e se enfurece contra si mesmo, e compreendemos tão pouco quanto o paciente a que é que isso pode levar e como pode modificar-se. De forma mais imediata, podemos atribuir tal função à parte inconsciente do trabalho, pois não é difícil perceber uma analogia essencial entre o trabalho da melancolia e o do luto. Do mesmo modo que o luto compele o ego a desistir do objeto, declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo de continuar a viver [ver em [1]], assim também cada luta isolada da ambivalência distende a fixação da libido ao objeto, depreciando-o, denegrindo-o e mesmo, por assim dizer, matando-o. É possível que o processo no Ics. chegue a um fim, quer após a fúria ter-se dissipado, quer após o objeto ter sido abandonado como destituído de valor. Não podemos dizer qual dessas duas possibilidades é a regular ou a mais usual para levar a melancolia a um fim, nem que influência esse término exerce sobre o futuro curso do caso. O ego pode derivar daí a satisfação de saber que é o melhor dos dois, que é superior ao objeto.
Mesmo que aceitemos esse conceito a respeito do trabalho da melancolia, ele ainda não proporciona uma explanação do único ponto que nos interessa esclarecer. Esperávamos que a condição econômica para o surgimento da mania, após a melancolia ter seguido o seu curso, fosse encontrada na ambivalência que domina essa afecção, e nisso encontramos um apoio proveniente de analogias em vários outros campos. Mas existe um fato diante do qual essa expectativa tem de se render. Das três precondições da melancolia - perda do objeto, ambivalência e regressão da libido ao ego -, as duas primeiras também se encontram nas auto-recriminações obsessivas que surgem depois da ocorrência de uma morte. Indubitavelmente, nesses caso é a ambivalência que constitui a força motora do conflito, revelando-nos a observação que, depois de determinado o conflito, nada mais resta que se assemelhe ao triunfo de um estado de mente maníaco. Somos levados assim a considerar o terceiro fator como o único responsável pelo resultado. O acúmulo de catexia que, de início, fica vinculado e, terminado o trabalho da melancolia, se torna livre, fazendo com que a mania seja possível, deve ser ligado à regressão da libido ao narcisismo. O conflito dentro do ego, que a melancolia substitui pela luta pelo objeto, deve atuar como uma ferida dolorosa que exige uma anticatexia extraordinariamente elevada. - Aqui, porém, mais uma vez, será bom parar e adiar qualquer outra explicação da mania até que tenhamos obtido certa compreensão interna (insight) da natureza econômica, primeiro da dor física, depois da dor mental análoga a ela. Conforme já sabemos, a interdependência dos complicados problemas da mente nos força a interromper qualquer indagação antes que esta esteja concluída - até que o resultado de uma outra indagação possa vir em sua ajuda.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Entrevista de Sigmund Freud à BBC 1938



O que é inteligência? Além do Efeito Flynn


“Inteligência, por definição, é aquilo que os teste de inteligência medem” 
Jensen, 1972
Com o crescimento e a globalização mundial, a população a cada dia precisa se atualizar mais para tentar acompanhar as novas informações inseridas no nosso dia a dia. Em meio a esse “bum” tecnológico, nosso século também assistiu enormes ganhos de QI das gerações passadas para a geração atual, os quais levaram estudos e avaliações detalhadas desses números.
James R. Flynn professor Emérito da Universidade de Otago na Nova Zelândia, após se deparar com estudos acerca dos escores de teste mentais de soldados norte-americanos enviados a Primeira e Segunda Guerra e pesquisas com jovens do sexo masculino em que em uma mesma geração tiveram grandes avanços nos escores de seus QIs, além de outras pesquisas, fizeram-no pensar e desenvolver uma teoria tentando explicar e entender esses valores tão elevados, suscitando assim em alguns paradoxos científicos, os quais ele discorre em seu livro.
Nos primeiros capítulos, Flynn nos situa em sua teoria, tendo como base o entendimento da nossa inteligência, que ele associa a um átomo, que devemos saber o que agrega e o que separa seus componentes. O que reúne os componentes da inteligência é um fator geral que ele chama de “g”, e o que atua como destruidor de “g” é o efeito Flynn ou os enormes ganhos de QI. Ainda no mesmo capítulo, Flynn discorre sobre esse fator “g”, afirmando esse ser todas as nossas habilidades e capacidades gerais, tornando-nos bom em alguma coisa ou em várias coisas. Dessa forma se alguém é bom em tarefas cognitivas dizemos que ele tem um “g” ou QI. 
A técnica utilizada para avaliar esse g(QI), é chamada de análise fatorial, o qual seu resultado é dado a partir da avaliação do desempenho em uma ampla variedade de testes cognitivos.
 Flynn analisando os resultados de alguns testes que visam à medição da inteligência, ele percebeu que esses testes não traziam dados satisfatórios e coerentes a sua ideia de inteligência. 
Acreditamos que nossa geração é a mais avançada, mais desenvolvidas que as gerações passadas, ou mesmo nossos ancestrais. De acordo com o autor, o que nos difere (cognitivamente) dos nossos ancestrais é a nossa forma de solução de problemas, onde nós conseguimos pensar em abstrações e traze-las se necessário para o concreto, estaríamos no estágio operatório formal de Piaget, enquanto que os nossos ancestrais por motivos de sobrevivência ainda estariam no estágio operatório-concreto. E essa diferença atrelada aos DPs (desvios de padrão)  das duas gerações nos leva a pensar que somos mais “inteligentes”  que nossos ancestrais. 
“Se a inteligência fosse aquilo que os testes de QI atuais medem, nunca poderíamos inventar um teste de QI melhor, pois o novo teste, por definição seria diferente daquele que mede a inteligência.” (Flynn, pág.50) Essa foi a resposta dada  a frase de Jensen citada no inicio do texto. Flynn não acredita em uma definição exata para inteligência, uma vez que todas apresentadas são pouco comparáveis à teoria “g”.
Outro paradoxo discutido por Flynn é a influência exercida em nossa inteligência por nossos genes e pelo ambiente. A maioria das pesquisas aponta que o QI é hereditário, sendo apenas 25% destinado a interferência do ambiente na inteligência, ou seja, somos desde que nascemos programados e prontos e acabados. Já a teoria de James Flynn aposta em uma visão onde gene e ambiente possuem médias semelhantes na influencia em nosso QI. Uma vez que se o indivíduo tiver uma predisposição “g” para uma atividade e o ambiente for favorável a esse desenvolvimento, seus genes ganham créditos. As tendências ambientais levam a processos de realimentação – O ambiente usando multiplicadores sociais a fim de aumentar o QI ao longo do tempo. Ainda no assunto sobre ambiente, Flynn traz uma nova afirmação, onde o ambiente pode ter um impacto cumulativo imenso sobre o QI ao longo do tempo. Uma vez que o QI médio social pode influenciar O QI médio individual.
Para confirmar todas as características propostas pelo modelo Flynn, seria necessário estudos longitudinais em uma grande amostra, mensurando suas habilidades cognitivas e QIs anualmente por um período de tempo, como Flynn ressalta: “ e aqueles que se sentem impacientes deviam ajudar” (Flynn pág. 87), seguindo o modelo como método de pesquisa ou mesmo propondo novos modelos.
No capítulo 6, o autor vem discutir sobre as normas obsoletas dos testes de QI, observando que o escore encontrado naquele indivíduo só estará correto se essa pessoa for comparada a uma amostra representativa. Um outro ponto ressaltado é que a cada ano que passa desde a normalização de um teste, a absolescência terá aumentado seus QIs em 0,30 pontos. O reajuste se dá na subtração desses 0,30 pontos da época da normalização até o período de aplicação do teste.
    Por conta dessas absolescências, Flynn vem externar sobre a classificação de pessoas como retardas mental. A American Association on Mental Retardation (AAMR), classifica como retardado mental aquele indivíduo cujo QI é de aproximadamente 70 ou 75 combinados com um comportamento adaptativo deficiente. Por isso Flynn vem nos alertar sobre a aplicação de testes desatualizados aplicados a essas pessoas ditas como retardadas mentais, pois um erro numérico por conta da desatenção a absolescência pode prejudicar a vida de um cidadão, como ele mostra no caso de presos no corredor da morte.
Flynn acredita que não há motivos para que os ganhos de QI continuem para sempre. E em consequências teria-se o fim das mortes no corredor da morte e os testes em 30 anos não se tornariam obsoletos. Além de que se os ganhos parassem no mundo desenvolvido, o mundo em desenvolvimento poderia os alcançar. Essa hipótese não que dizer que ao fim dos ganhos de QI significariam o fim do progresso cognitivo, afinal, existem outras habilidades que os testes não conseguem medir, a sabedoria, por exemplo. “A sabedoria é o conhecimento de como viver uma vida boa e, com sorte suficiente para entender outros povos e suas histórias, é o conhecimento de como tornar o mundo melhor.” (Flynn, página 137).
Os últimos capítulos, Flynn deixa para suas explanações finais .Além de responder a outros métodos e pesquisas que vieram a questionar os dados obtidos por seu método. Sendo necessário ressaltar, que alguns paralelos entre algumas teorias que foram disseminadas pelos meios científicos e conhecido e defendido por um grande número de pessoas, um exemplo a Teoria da Inteligência Emocional de Daniel Goleman, se fazem presente no decorrer de seu livro.
E no último capítulo, a pedidos, o autor se dedica ao modelo de Gardner, no qual ele desmistifica alguns pontos de convergência apoiando-se em sua teoria “g”.  
Enfim, estar em contato com o livro “O que é inteligência? Além do Efeito Flynn”, nos faz repensar enquanto psicólogos acerca de nossas classificações - sejam elas científicas ou mesmo partindo de um senso comum - sobre o conceito de inteligência. Além de nos alertar sobre o cuidado, a veracidade ou mesmo a validade dos testes psicológicos adotados por nós ou aqueles que nos fora aplicados. E por fim, entender que a sabedoria é algo que se conquista com o tempo e que nossa inteligência também.

Fonte: FLYNN, J.R.O que é inteligência? Além do efeito Flynn. Porto Alegre, 2009. Artmed

Curso de Teoria Cognitiva


Aos amigos que gostam de Psicologia Cognitiva, esta ai uma boa oportunidade de curso para o ano de 2013. Abaixo o folder com as informações para os interessados!!
Caso não esteja conseguindo visualizar esta mensagem, acesse:
http://www.itcbr.com/emkt/emkt-12-12-07.htm


Agradecimento aos Membros do PsicoAção- UNITRI

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Mundo esta ficando mais velho!!!




O mundo esta ficando velho, o Relatório sobre a Situação da População Mundial de 2011 apresentado pelo Fundo de População das Nações Unidas – (UNFPA, sigla em inglês) – o mundo hoje é habitado por 7 milhões de habitantes e desse número 893 milhões estão na faixa etária acima de 60 anos. No Relatório “População e Envelhecimento: Factos e Números”, emitido na segunda Assembleia sobre o Envelhecimento em 2002 organizado pelas Nações Unidas aponta que a “população de idosos está a crescer a uma taxa anual de 2%, isto é, a um ritmo consideravelmente mais rápido do que o do conjunto da população”, observando um crescimento maior de idosos do que os outros grupos etários pelo menos nos próximos 25 anos. A população idosa esta a envelhecer ainda mais, muitos poderão chegar a 80 anos ou mais, “até 2050, o número de idosos no mundo excederá o de jovens, pela primeira vez na história da humanidade”, aponta o relatório. Da mesma forma, dados da OMS – Organização Mundial de Saúde -, apontam que “em 2009, a expectativa de vida ao nascer no mundo foi de 68 anos, variando de 57 anos, países de baixa renda a 80 anos em países de alta renda, com uma relação de 1,4 entre os dois grupos de renda”[1].
O Brasil esta dentro deste processo de envelhecimento que o mundo passa. Kalache (1987) em seu estudo percebeu que na década de 50 e 60 o número de idosos era menor que o número de jovens, observando nesse período o número maior nas taxas de natalidade e mortalidade e uma diminuição gradual de 30% nas taxas de natalidade entre os anos de 1970 e 1980. A população brasileira no ano de 2011 chegou a 195,2 milhões, como aponta a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD-, nessa pesquisa as pessoas com 60 anos ou mais representam 12,1% da população total.  Dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a expectativa de vida dos brasileiros nascidos em 2010 alcançou 73,4, enquanto que em 1960 a expectativa era de apenas de 48 anos, ou seja, um crescimento de 25,4 anos nesses cinquenta anos. A mesma pesquisa aponta que em 2050 a expectativa de vida para os brasileiros seja de 81,2 anos.
Acompanhando o fenômeno de envelhecimento nacional, o poder legislativo pensando em normativas públicas alicerçadas por nossa legislação vigente, cria e é sancionado pelo presidente da república em 1º de outubro de 2003 o Estatuto do Idoso na forma de Lei nº 10.471, firmando assim os direitos invioláveis dos idosos da nação. Em seus 119 artigos, o Estatuto do Idoso contempla todas as áreas legais que a sociedade deve ao idoso. Com essa lei em vigor os idosos ampliam sua proteção jurídica e começam a ganhar maior visibilidade social, “[...] envelhecer nesse país é mais do que sobreviver, é mais do que resistir, é mais do que ficar olhando a porta à espera da visita que não vem. A partir de hoje a dignidade do idoso passa a ser um compromisso civilizatório do povo brasileiro”; afirmou o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia solene de sancionou a lei.
 “Art. 8o O envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta Lei e da legislação vigente”. Estatuto do Idoso, 2003
Com tantos números é possível inferir que vida esta em movimento, embora a sociedade moderna não esteja preparada para essa mais nova mudança, vive-se ainda numa doutrina na qual a todo o momento, tudo se modifica e se transforma dando espaço para o “novo”. O “novo” sempre nos fascina, nos intriga e na maioria das vezes nos entusiasma e nos coloca em uma condição de ação para acompanhá-lo e desvendá-lo. Ao contrário disso temos o desprezo, o descuido e a passividade plena perante o “velho”, visto que esse muitas vezes nos causa medo, angústia e ate mesmo descaso. É como se o “velho” fosse aquele brinquedo colorido e todo musical que ganhamos no nosso aniversário de um ano, e que como tempo, junto ao nosso crescimento, perdeu o seu valor mágico e seu lugar de destaque na nossa predileção, dando espaço para outros “novos” brinquedos com mais cores e musicas da moda. Em pleno vapor tecnológico e globalizado, a sociedade contemporânea passa por grandes modificações, nos obrigando a conviver com o “novo” a todo instante, tudo é novo, tudo é novidade, tudo é “colorido e musical”. Em paralelo a essa patifaria mundial nos deparamos com uma população crescente que tenta a seu modo e tempo acompanhar a essa explosão global.
Assim como a infância, adolescência e a idade adulta, o envelhecimento também é uma fase inata do ser humano.  É esperado que todo indivíduo consiga chegar nesta fase – em condições básicas para a completude do ciclo vital -, espera-se do indivíduo que ele desenvolva, Neri 2008 ressalta que o “o organismo é um sistema vivo” e que seu “desenvolvimento é processo que comporta os predicados sequência, ritmo e duração”, portanto:
“O desenvolvimento é a trajetória de mudanças ao longo do tempo, que conduz o organismo à maior organização e à maior hierarquização, por meio das quais as partes ou os sistemas menores são englobados em partes ou sistemas mais abrangentes”. (NERI, 2008 pag 62)
            As ideias sobre o envelhecimento variam de cultura para cultura, Papalia 2006 apresenta que nos países orientais, como no Japão, ser velho é uma marca de status, enquanto que nos países ocidentais a velhice ainda é permeada por estigmas e (pré)conceitos embasados nas teorias e ideologias capitalistas vigentes no mundo contemporâneo, no qual coloca o indivíduo em uma posição “coisificada” materialmente perecível e não em uma condição humanamente limitada, mas infinitamente produtiva mentalmente, culturalmente e socialmente.
 “O questionamento aos estereótipos que se criam em torno do idoso é reiterado por Alda Brito da Motta, ao enfocar o sentimento do corpo e as ambigüidades na coexistência de diferentes visões sobre envelhecimento na sociedade capitalista contemporânea. A reprodução de estigmas e preconceitos quanto à velhice, reforçada pelos saberes constituídos nesse campo e pelos próprios idosos, dá-se em meio a resistências e aberturas a novas expressões, caracterizando uma época de transição de valores funcionalizada também pelo mercado por meio do estímulo a novos nichos de consumo”. (MINAYO, 2002)

            Uma vez que todas as espécies do mundo passam por um processo de transformação no decorrer da vida e cada etapa gera uma transformação física, psíquica e social. No caso da velhice as marcas físicas tornam-se evidentes na medida em que o passar do tempo vai acontecendo. A ideia capitalista conseguiu colocar a velhice em uma posição marginalizada numa escala de produção, no qual o indivíduo é sua totalidade ao passo que produz e contribui diretamente com o sistema, e, como o velho por motivos físicos – na maioria das vezes- fica limitado para produção, o Sistema o coloca em uma condição de perda simbólica, como ressalta Mendes (2004). Dentre as mudanças físicas, Papalia 2006 ressalta mudanças físicas típicas associadas à velhice como:
“ a pele tende a ficar mais pálida e manchada, menos flexível; como algumas gorduras e músculos desaparecem, a pele pode enrugar. Veias varicosas nas pernas tornam-se mais comuns. Os cabelos ficam grisalhos e mais finos, e os pelos corporais tornam-se mais escassos. Mudanças menos visíveis afetam órgãos internos e sistemas corporais, o cérebro e o funcionamento sensório, motor e sexual.” ( PAPALIA, 2002)
            Neri (2008) salienta que o funcionamento biológico possui uma lógica muito ímpar, mas que tende a enfraquecer-se na velhice a fim de aumentar a “probabilidade de sobrevivência”. Portanto idade biológica é o tempo cronológico que resta para a pessoa viver, enquanto que o envelhecimento biológico ou senescência é o processo que resiste, mesmo diminuído, para manter a sobrevivência. Por envelhecimento psicológico pode-se referir a dualidades, de um lado refere-se a questões cognitivas, um segundo significado diz respeito como o indivíduo vê o seu desenvolvimento, ou seja, “senso subjetivo da sua idade”.
            Para nossa cultura capitalista no qual o trabalho é “alma do negócio”, o marco da terceira idade se dá com a aposentadoria, um termo institucionalizado socialmente que possui tanto valor financeiro quanto valor social. O aposentado é aquele  indivíduo que não mais possui trabalho formal, mas lhe é assegurado uma renda ate a sua morte, ao mesmo tempo também que o aposentado é o “atoa” ou mesmo “inválido”. Estar aposentado comumente gera uma crise no indivíduo, como aponta Mendes (2005), a sensação de ser útil, expectativa de competição e auto-estima tende a ser reduzidos. Num primeiro momento a aposentadoria é vista como algo esperado passando subsequente para uma condição de tristeza e sentimento de ausência de papel social.
            Tomando por base Erikson, teremos na terceira idade a oitava e ultima crise do ciclo vital, “integridade do ego versus desespero”, no qual Papalia 2006, sustenta que nessa crise indivíduos mais velhos necessitam “avaliar, resumir e aceitar sua vida para poderem aceitar a aproximação da morte” e que é esperado que a partir dos resultados das outras sete crises passadas, esse individuo consiga obter um senso de coerência e de integridade, em vez de se entregar ao desespero por sua incapacidade natural do final do ciclo. Erikson afirma que o desespero em algum momento deste desenvolvimento é totalmente esperado e inevitável. O individuo se forma a partir do outro, já dizia Lacan. No caso do idoso seu papel social é um fator muito significativo para o seu processo de envelhecimento. Relações com familiares, amigos e sociedade o auxiliam a transitar melhor por essa fase. Há uma falsa crença de que quanto mais idade o individuo possui, mais retraído e deprimido ele se torna.
           

Referências:

PAPALIA, D. E.; OLDS, S. W.. Desenvolvimento Humano. 8º ed., Porto Alegre, Ed. Artmed, 2006.

NERI, A.L. Palavras chaves em gerontologia. 3º Ed.,São Paulo, Ed. Alínea, 2008.

KALACHE, Alexandre. Envelhecimento populacional no Brasil: uma realidade nova.Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro,  v. 3,  n. 3, Sept.  1987.  Acesso em  28  Nov.  2012. 

LOPES, R. F; Lopes, M. T. F; CAMARA, V. D. Entendendo a solidão do idoso. passo Fundo, v. 6, n. 3, p. 373-381, set./dez. 2009. acesso dia 28 de novembro de 2012 disponível em: http://www.upf.br/seer/index.php/rbceh/article/view/362/818

Solidão na velhice: algumas reflexões a partir da compreensão de um grupo de idosos. Disponível em: www.esp.rs.gov.br/img2/v17n2_19solidaoVelhice.pdf. Acesso em: 26 de novembro de 2012.

TEIXIERA, L. M. F. Solidão e qualidade de vida em idosos: um estudo avaliativo exploratório e implementação – piloto de um programa de intervenção. Mestrado integrado de Psicologia. Universidade de Lisboa. 2012







[1]  Dados disponíveis em: http://www.who.int/gho/mortality_burden_disease/life_tables/situation_trends_text/en/

Ato Médico é aprovado na Câmara!


Após uma sala abarrotada de integrantes de entidades que representam os médicos e as outras categorias da saúde, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, aprovou na ultima quarta feira 08/12/2012 o projeto do Ato Médico, o texto ainda precisa de algumas modificações em seu texto, para posteriormente passar para voto no plenário.Este projeto ja tramita no congresso a 10 anos e tem como objetivo, a delimitação do campo de atuação da medicina.
Para chegar à aprovação na comissão, Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) rejeitou algumas modificações polêmicas feitas pelos deputados e resgatou medidas contidas no substitutivo de Lúcia Vânia (PSDB-GO). O relator, por exemplo, manteve como privativa dos médicos a "formulação de diagnóstico nosológico", para determinar a doença, mas retirou essa exclusividade para diagnósticos funcional, psicológico e nutricional, além de avaliação comportamental, sensorial, de capacidade mental e cognitiva.
Sobre as modificações feitas, temos:
Biópsias e citologia
Valadares também rejeitou mudança da Câmara que limitava aos médicos a emissão dos diagnósticos de anatomia patológica e de citopatologia, que visam identificar doenças pelo estudo de parte de órgão ou tecido. Para os biomédicos e farmacêuticos, a emenda dos deputados restringiria sua liberdade de atuação.
O relator retirou o dispositivo, mas manteve como tarefa restrita aos médicos a emissão de laudos desse tipo de diagnósticos.
Respiração artificial

Conforme emenda da Câmara acolhida por Valadares, caberá exclusivamente aos médicos a "coordenação da estratégia ventilatória inicial e do programa de interrupção da ventilação mecânica".Algumas emendas da Câmara foram mantidas por Valadares, como a que trata de assistência ventilatória mecânica - intubação do paciente acoplada a equipamento que bombeia ar aos pulmões. O texto aprovado em 2006 no Senado previa como exclusiva dos médicos a "definição da estratégia ventilatória inicial" e a "supervisão do programa de interrupção da ventilação". A norma foi questionada por fisioterapeutas, que também atendem pacientes com dificuldade respiratória.
Procedimentos invasivos
O projeto prevê como atribuição exclusiva de médicos a indicação e a execução de "procedimentos invasivos, sejam diagnósticos, terapêuticos ou estéticos", que incluem, entre outros, "invasão da pele atingindo o tecido subcutâneo para injeção". A norma motivou reação de acupunturistas e tatuadores, que temem restrição por conta da interpretação de conceito de procedimento invasivo.
Valadares manteve a norma, mas retirou da lista de atribuições exclusivas dos médicos a "aplicação de injeções subcutâneas, intradérmica, intramusculares e intravenosas", apesar de a recomendação de medicamentos a serem aplicados por injeção continuar sendo uma prerrogativa médica.
Direção e chefia
Outro aspecto polêmico se refere à determinação de que apenas médicos podem ocupar cargos de direção e chefia de serviços médicos, ficando aberta a outros profissionais apenas a direção administrativa dos serviços. As demais categorias argumentam que o atendimento é feito por uma equipe multidisciplinar, não havendo justificativa para que apenas uma categoria tenha a prerrogativa de direção e chefia na unidade de saúde.

Pontos importantes:
Muitos estudiosos afirmam que o Ato Médico contraria o conceito de que saúde significa bem-estar geral, e não só ausência de doença. O modelo médico embasa-se numa visão de homem enquanto ser natural que se explica pela suas condições biológicas, e a saúde é entendida como contrária a doenças, sendo aquela a condição de adaptação à sociedade, o que equivale à consagração do binômio normal - anormal. Atualmente, com a complexidade e dinamicidade da sociedade, o conceito de saúde vem se modificando, não se estabelecendo somente na condição biológica do homem, mas também na sua constituição e interação social. Sendo assim, a saúde passa a ser conceituada como a condição de enfrentamento do homem diante das diversidades atuais.
O deputado Dr. Rosinha (2006), ao afirmar que "o avanço de um sistema de promoção à saúde e construção da cidadania depende muito mais de atuação coletiva (atos pela cidadania) dos profissionais do que do individualismo do ato médico"(online), explicita uma das condições fundamentais do neoliberalismo, que é o individualismo. A afirmação do CFM é que o campo das doenças e da saúde é ato privativo do médico. Isto pode significar um olhar dirigido somente para o sintoma da doença, e não para sua causa.
Vamos ao considerado pai do neoliberalismo, Hayek (1987/1944), em sua obra O caminho da servidão. "(...) o sistema de objetivos do indivíduo deve ser soberano, não estando sujeito aos ditames alheios. É esse reconhecimento do indivíduo como juiz supremo dos próprios objetivos, é a convicção de que suas idéias deveriam governar-lhe tanto quanto possível a conduta, que constitui a essência da visão individualista" (p.76) . Hayek considera ainda importante uma sociedade concorrencial, por ela permitir a competitividade; assim o corporativismo é permitido, traduzido, por exemplo, numa classe de profissionais que protege seus interesses através de normas estabelecidas pelo Estado.
A idéia de que o indivíduo ou determinada classe de profissionais se bastem significa abolir qualquer trabalho coletivo. O caráter individual pressupõe a um só tempo a eficiência e a autogestão, que podem se converter em sucesso ou fracasso, pois dependem do indivíduo ou classe.
Neste sentido, acreditamos que boa parte da classe médica ainda não se deu conta de que a autonomia estabelecida pelo Ato Médico também tem um preço. Eles, os médicos, passam a ser os únicos responsáveis pela doença/cura do cidadão, não podendo partilhar dúvidas com outros profissionais. É a afirmação de que uma única classe de profissionais da saúde é capaz de dar conta de toda a complexidade atual. Como será que ela responderá ao momento em que vivemos?
Cremos que devemos ouvir atentamente a proposta do deputado Dr. Rosinha, segundo a qual, ao invés de discutir a definição do que seja o Ato Médico, deveríamos pensar na construção de um código onde a responsabilidade ética seja de toda a equipe profissional que atua sobre o ser humano, e não apenas de uma categoria.4


O projeto do Ato Médico (PL 7703/06) é polêmico porque dá aos médicos a exclusividade do diagnóstico e da prescrição dos tratamentos. Entidades representativas de outras áreas da saúde se opõem à proposta com o argumento de que a população tem o direito ao livre acesso aos profissionais da saúde, sem que tenham de passar obrigatoriamente por uma consulta médica. "Como admitir que os médicos façam a prescrição terapêutica em áreas do conhecimento (Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Fono- audiologia, Enfermagem, Nutrição, Educação Física, Serviço Social, Psicologia, Farmácia, Odontologia, Biomedicina) em que eles nunca tiveram qualquer tipo de treinamento?", questiona o presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional de São Paulo (Crefito-SP), Gil Lúcio Almeida, em manifesto publicado no site www.atomediconao.com.br. Tem preferência na votação do Plenário o texto aprovado no último dia 14 pela Comissão de Seguridade Social e Família. O texto lista o que é privativo dos médicos e o que não é privativo.


Fontes:
O Ato Médico e suas implicações. Psicol. estud. [online]. 2006, vol.11, n.2, pp. 235-236. ISSN 1413-7372.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722006000200001. 
www.pol.org.br