“Inteligência, por definição, é aquilo que os teste de inteligência medem”
Jensen, 1972
Com o crescimento e a globalização mundial, a população a cada dia precisa se atualizar mais para tentar acompanhar as novas informações inseridas no nosso dia a dia. Em meio a esse “bum” tecnológico, nosso século também assistiu enormes ganhos de QI das gerações passadas para a geração atual, os quais levaram estudos e avaliações detalhadas desses números.
James R. Flynn professor Emérito da Universidade de Otago na Nova Zelândia, após se deparar com estudos acerca dos escores de teste mentais de soldados norte-americanos enviados a Primeira e Segunda Guerra e pesquisas com jovens do sexo masculino em que em uma mesma geração tiveram grandes avanços nos escores de seus QIs, além de outras pesquisas, fizeram-no pensar e desenvolver uma teoria tentando explicar e entender esses valores tão elevados, suscitando assim em alguns paradoxos científicos, os quais ele discorre em seu livro.
Nos primeiros capítulos, Flynn nos situa em sua teoria, tendo como base o entendimento da nossa inteligência, que ele associa a um átomo, que devemos saber o que agrega e o que separa seus componentes. O que reúne os componentes da inteligência é um fator geral que ele chama de “g”, e o que atua como destruidor de “g” é o efeito Flynn ou os enormes ganhos de QI. Ainda no mesmo capítulo, Flynn discorre sobre esse fator “g”, afirmando esse ser todas as nossas habilidades e capacidades gerais, tornando-nos bom em alguma coisa ou em várias coisas. Dessa forma se alguém é bom em tarefas cognitivas dizemos que ele tem um “g” ou QI.
A técnica utilizada para avaliar esse g(QI), é chamada de análise fatorial, o qual seu resultado é dado a partir da avaliação do desempenho em uma ampla variedade de testes cognitivos.
Flynn analisando os resultados de alguns testes que visam à medição da inteligência, ele percebeu que esses testes não traziam dados satisfatórios e coerentes a sua ideia de inteligência.
Acreditamos que nossa geração é a mais avançada, mais desenvolvidas que as gerações passadas, ou mesmo nossos ancestrais. De acordo com o autor, o que nos difere (cognitivamente) dos nossos ancestrais é a nossa forma de solução de problemas, onde nós conseguimos pensar em abstrações e traze-las se necessário para o concreto, estaríamos no estágio operatório formal de Piaget, enquanto que os nossos ancestrais por motivos de sobrevivência ainda estariam no estágio operatório-concreto. E essa diferença atrelada aos DPs (desvios de padrão) das duas gerações nos leva a pensar que somos mais “inteligentes” que nossos ancestrais.
“Se a inteligência fosse aquilo que os testes de QI atuais medem, nunca poderíamos inventar um teste de QI melhor, pois o novo teste, por definição seria diferente daquele que mede a inteligência.” (Flynn, pág.50) Essa foi a resposta dada a frase de Jensen citada no inicio do texto. Flynn não acredita em uma definição exata para inteligência, uma vez que todas apresentadas são pouco comparáveis à teoria “g”.
Outro paradoxo discutido por Flynn é a influência exercida em nossa inteligência por nossos genes e pelo ambiente. A maioria das pesquisas aponta que o QI é hereditário, sendo apenas 25% destinado a interferência do ambiente na inteligência, ou seja, somos desde que nascemos programados e prontos e acabados. Já a teoria de James Flynn aposta em uma visão onde gene e ambiente possuem médias semelhantes na influencia em nosso QI. Uma vez que se o indivíduo tiver uma predisposição “g” para uma atividade e o ambiente for favorável a esse desenvolvimento, seus genes ganham créditos. As tendências ambientais levam a processos de realimentação – O ambiente usando multiplicadores sociais a fim de aumentar o QI ao longo do tempo. Ainda no assunto sobre ambiente, Flynn traz uma nova afirmação, onde o ambiente pode ter um impacto cumulativo imenso sobre o QI ao longo do tempo. Uma vez que o QI médio social pode influenciar O QI médio individual.
Para confirmar todas as características propostas pelo modelo Flynn, seria necessário estudos longitudinais em uma grande amostra, mensurando suas habilidades cognitivas e QIs anualmente por um período de tempo, como Flynn ressalta: “ e aqueles que se sentem impacientes deviam ajudar” (Flynn pág. 87), seguindo o modelo como método de pesquisa ou mesmo propondo novos modelos.
No capítulo 6, o autor vem discutir sobre as normas obsoletas dos testes de QI, observando que o escore encontrado naquele indivíduo só estará correto se essa pessoa for comparada a uma amostra representativa. Um outro ponto ressaltado é que a cada ano que passa desde a normalização de um teste, a absolescência terá aumentado seus QIs em 0,30 pontos. O reajuste se dá na subtração desses 0,30 pontos da época da normalização até o período de aplicação do teste.
Por conta dessas absolescências, Flynn vem externar sobre a classificação de pessoas como retardas mental. A American Association on Mental Retardation (AAMR), classifica como retardado mental aquele indivíduo cujo QI é de aproximadamente 70 ou 75 combinados com um comportamento adaptativo deficiente. Por isso Flynn vem nos alertar sobre a aplicação de testes desatualizados aplicados a essas pessoas ditas como retardadas mentais, pois um erro numérico por conta da desatenção a absolescência pode prejudicar a vida de um cidadão, como ele mostra no caso de presos no corredor da morte.
Flynn acredita que não há motivos para que os ganhos de QI continuem para sempre. E em consequências teria-se o fim das mortes no corredor da morte e os testes em 30 anos não se tornariam obsoletos. Além de que se os ganhos parassem no mundo desenvolvido, o mundo em desenvolvimento poderia os alcançar. Essa hipótese não que dizer que ao fim dos ganhos de QI significariam o fim do progresso cognitivo, afinal, existem outras habilidades que os testes não conseguem medir, a sabedoria, por exemplo. “A sabedoria é o conhecimento de como viver uma vida boa e, com sorte suficiente para entender outros povos e suas histórias, é o conhecimento de como tornar o mundo melhor.” (Flynn, página 137).
Os últimos capítulos, Flynn deixa para suas explanações finais .Além de responder a outros métodos e pesquisas que vieram a questionar os dados obtidos por seu método. Sendo necessário ressaltar, que alguns paralelos entre algumas teorias que foram disseminadas pelos meios científicos e conhecido e defendido por um grande número de pessoas, um exemplo a Teoria da Inteligência Emocional de Daniel Goleman, se fazem presente no decorrer de seu livro.
E no último capítulo, a pedidos, o autor se dedica ao modelo de Gardner, no qual ele desmistifica alguns pontos de convergência apoiando-se em sua teoria “g”.
Enfim, estar em contato com o livro “O que é inteligência? Além do Efeito Flynn”, nos faz repensar enquanto psicólogos acerca de nossas classificações - sejam elas científicas ou mesmo partindo de um senso comum - sobre o conceito de inteligência. Além de nos alertar sobre o cuidado, a veracidade ou mesmo a validade dos testes psicológicos adotados por nós ou aqueles que nos fora aplicados. E por fim, entender que a sabedoria é algo que se conquista com o tempo e que nossa inteligência também.
Fonte: FLYNN, J.R.O que é inteligência? Além do efeito Flynn. Porto Alegre, 2009. Artmed

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