O mundo esta ficando velho, o Relatório sobre a Situação da População
Mundial de 2011 apresentado pelo Fundo de População das Nações Unidas –
(UNFPA, sigla em inglês) – o mundo hoje é habitado por 7 milhões de habitantes
e desse número 893 milhões estão na faixa etária acima de 60 anos. No Relatório
“População e Envelhecimento: Factos e
Números”, emitido na segunda Assembleia sobre o Envelhecimento em 2002
organizado pelas Nações Unidas aponta que a “população de idosos está a crescer
a uma taxa anual de 2%, isto é, a um ritmo consideravelmente mais rápido do que
o do conjunto da população”, observando um crescimento maior de idosos do que
os outros grupos etários pelo menos nos próximos 25 anos. A população idosa
esta a envelhecer ainda mais, muitos poderão chegar a 80 anos ou mais, “até
2050, o número de idosos no mundo excederá o de jovens, pela primeira vez na
história da humanidade”, aponta o relatório. Da mesma forma, dados da OMS –
Organização Mundial de Saúde -, apontam que “em 2009, a expectativa de vida
ao nascer no mundo foi de 68 anos, variando de 57 anos, países de baixa renda a
80 anos em países de alta renda, com uma relação de 1,4 entre os dois grupos de
renda”[1].
O Brasil esta
dentro deste processo de envelhecimento que o mundo passa. Kalache (1987) em
seu estudo percebeu que na década de 50 e 60 o número de idosos era menor que o
número de jovens, observando nesse período o número maior nas taxas de
natalidade e mortalidade e uma diminuição gradual de 30% nas taxas de
natalidade entre os anos de 1970 e 1980. A população brasileira no ano de 2011
chegou a 195,2 milhões, como aponta a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
– PNAD-, nessa pesquisa as pessoas com 60 anos ou mais representam 12,1% da
população total. Dados do IBGE –
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a expectativa de vida dos
brasileiros nascidos em 2010 alcançou 73,4, enquanto que em 1960 a expectativa era de
apenas de 48 anos, ou seja, um crescimento de 25,4 anos nesses cinquenta anos.
A mesma pesquisa aponta que em 2050
a expectativa de vida para os brasileiros seja de 81,2
anos.
Acompanhando
o fenômeno de envelhecimento nacional, o poder legislativo pensando em
normativas públicas alicerçadas por nossa legislação vigente, cria e é
sancionado pelo presidente da república em 1º de outubro de 2003 o Estatuto do
Idoso na forma de Lei nº 10.471, firmando assim os direitos invioláveis dos
idosos da nação. Em seus 119 artigos, o Estatuto do Idoso contempla todas as
áreas legais que a sociedade deve ao idoso. Com essa lei em vigor os idosos
ampliam sua proteção jurídica e começam a ganhar maior visibilidade social,
“[...] envelhecer nesse país é mais do que sobreviver, é mais do que resistir,
é mais do que ficar olhando a porta à espera da visita que não vem. A partir de
hoje a dignidade do idoso passa a ser um compromisso civilizatório do povo
brasileiro”; afirmou o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva na
cerimônia solene de sancionou a lei.
“Art. 8o O envelhecimento é um direito
personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta Lei e da
legislação vigente”. Estatuto do Idoso, 2003
Com tantos números é possível inferir que vida esta em movimento, embora
a sociedade moderna não esteja preparada para essa mais nova mudança, vive-se
ainda numa doutrina na qual a todo o momento, tudo se modifica e se transforma
dando espaço para o “novo”. O “novo” sempre nos fascina, nos intriga e na
maioria das vezes nos entusiasma e nos coloca em uma condição de ação para
acompanhá-lo e desvendá-lo. Ao contrário disso temos o desprezo, o descuido e a
passividade plena perante o “velho”, visto que esse muitas vezes nos causa
medo, angústia e ate mesmo descaso. É como se o “velho” fosse aquele brinquedo
colorido e todo musical que ganhamos no nosso aniversário de um ano, e que como
tempo, junto ao nosso crescimento, perdeu o seu valor mágico e seu lugar de
destaque na nossa predileção, dando espaço para outros “novos” brinquedos com
mais cores e musicas da moda. Em pleno vapor tecnológico e globalizado, a
sociedade contemporânea passa por grandes modificações, nos obrigando a
conviver com o “novo” a todo instante, tudo é novo, tudo é novidade, tudo é
“colorido e musical”. Em paralelo a essa patifaria mundial nos deparamos com
uma população crescente que tenta a seu modo e tempo acompanhar a essa explosão
global.
Assim como a
infância, adolescência e a idade adulta, o envelhecimento também é uma fase
inata do ser humano. É esperado que todo
indivíduo consiga chegar nesta fase – em condições básicas para a completude do
ciclo vital -, espera-se do indivíduo que ele desenvolva, Neri 2008 ressalta
que o “o organismo é um sistema vivo” e que seu “desenvolvimento é processo que
comporta os predicados sequência, ritmo e duração”, portanto:
“O desenvolvimento é a trajetória de
mudanças ao longo do tempo, que conduz o organismo à maior organização e à
maior hierarquização, por meio das quais as partes ou os sistemas menores são
englobados em partes ou sistemas mais abrangentes”. (NERI, 2008 pag 62)
As
ideias sobre o envelhecimento variam de cultura para cultura, Papalia 2006
apresenta que nos países orientais, como no Japão, ser velho é uma marca de status, enquanto que nos países
ocidentais a velhice ainda é permeada por estigmas e (pré)conceitos embasados
nas teorias e ideologias capitalistas vigentes no mundo contemporâneo, no qual
coloca o indivíduo em uma posição “coisificada” materialmente perecível e não
em uma condição humanamente limitada, mas infinitamente produtiva mentalmente,
culturalmente e socialmente.
“O questionamento
aos estereótipos que se criam em torno do idoso é reiterado por Alda Brito da
Motta, ao enfocar o sentimento do corpo e as ambigüidades na coexistência de
diferentes visões sobre envelhecimento na sociedade capitalista contemporânea.
A reprodução de estigmas e preconceitos quanto à velhice, reforçada pelos
saberes constituídos nesse campo e pelos próprios idosos, dá-se em meio a
resistências e aberturas a novas expressões, caracterizando uma época de
transição de valores funcionalizada também pelo mercado por meio do estímulo a
novos nichos de consumo”. (MINAYO, 2002)
Uma vez que todas as espécies do
mundo passam por um processo de transformação no decorrer da vida e cada etapa
gera uma transformação física, psíquica e social. No caso da velhice as marcas
físicas tornam-se evidentes na medida em que o passar do tempo vai acontecendo.
A ideia capitalista conseguiu colocar a velhice em uma posição marginalizada
numa escala de produção, no qual o indivíduo é sua totalidade ao passo que
produz e contribui diretamente com o sistema, e, como o velho por motivos
físicos – na maioria das vezes- fica limitado para produção, o Sistema o coloca
em uma condição de perda simbólica, como ressalta Mendes (2004). Dentre as
mudanças físicas, Papalia 2006 ressalta mudanças físicas típicas associadas à
velhice como:
“ a pele
tende a ficar mais pálida e manchada, menos flexível; como algumas gorduras e
músculos desaparecem, a pele pode enrugar. Veias varicosas nas pernas tornam-se
mais comuns. Os cabelos ficam grisalhos e mais finos, e os pelos corporais
tornam-se mais escassos. Mudanças menos visíveis afetam órgãos internos e
sistemas corporais, o cérebro e o funcionamento sensório, motor e sexual.” (
PAPALIA, 2002)
Neri (2008) salienta que o
funcionamento biológico possui uma lógica muito ímpar, mas que tende a
enfraquecer-se na velhice a fim de aumentar a “probabilidade de sobrevivência”.
Portanto idade biológica é o tempo cronológico que resta para a pessoa viver,
enquanto que o envelhecimento biológico ou senescência é o processo que
resiste, mesmo diminuído, para manter a sobrevivência. Por envelhecimento
psicológico pode-se referir a dualidades, de um lado refere-se a questões
cognitivas, um segundo significado diz respeito como o indivíduo vê o seu
desenvolvimento, ou seja, “senso subjetivo da sua idade”.
Para nossa cultura capitalista no
qual o trabalho é “alma do negócio”, o marco da terceira idade se dá com a
aposentadoria, um termo institucionalizado socialmente que possui tanto valor
financeiro quanto valor social. O aposentado é aquele indivíduo que não mais possui trabalho formal,
mas lhe é assegurado uma renda ate a sua morte, ao mesmo tempo também que o
aposentado é o “atoa” ou mesmo “inválido”. Estar aposentado comumente gera uma
crise no indivíduo, como aponta Mendes (2005), a sensação de ser útil, expectativa
de competição e auto-estima tende a ser reduzidos. Num primeiro momento a
aposentadoria é vista como algo esperado passando subsequente para uma condição
de tristeza e sentimento de ausência de papel social.
Tomando por base Erikson, teremos na
terceira idade a oitava e ultima crise do ciclo vital, “integridade do ego
versus desespero”, no qual Papalia 2006, sustenta que nessa crise indivíduos
mais velhos necessitam “avaliar, resumir e aceitar sua vida para poderem
aceitar a aproximação da morte” e que é esperado que a partir dos resultados
das outras sete crises passadas, esse individuo consiga obter um senso de
coerência e de integridade, em vez de se entregar ao desespero por sua
incapacidade natural do final do ciclo. Erikson afirma que o desespero em algum
momento deste desenvolvimento é totalmente esperado e inevitável. O individuo
se forma a partir do outro, já dizia Lacan. No caso do idoso seu papel social é
um fator muito significativo para o seu processo de envelhecimento. Relações
com familiares, amigos e sociedade o auxiliam a transitar melhor por essa fase.
Há uma falsa crença de que quanto mais idade o individuo possui, mais retraído
e deprimido ele se torna.
Referências:
PAPALIA, D. E.; OLDS, S. W.. Desenvolvimento Humano. 8º ed., Porto
Alegre, Ed. Artmed, 2006.
PAPALIA, D. E.; OLDS, S. W.. Desenvolvimento Humano. 8º ed., Porto
Alegre, Ed. Artmed, 2006.
NERI, A.L. Palavras chaves em
gerontologia. 3º Ed.,São Paulo, Ed. Alínea, 2008.
KALACHE,
Alexandre. Envelhecimento populacional no Brasil: uma realidade nova.Cad.
Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 3, n.
3, Sept. 1987. Acesso
em 28 Nov. 2012.
LOPES, R. F;
Lopes, M. T. F; CAMARA, V. D. Entendendo a solidão do idoso. passo Fundo, v. 6,
n. 3, p. 373-381, set./dez. 2009. acesso dia 28 de novembro de 2012 disponível
em: http://www.upf.br/seer/index.php/rbceh/article/view/362/818
Solidão na
velhice: algumas reflexões a partir da compreensão de um grupo de idosos.
Disponível em: www.esp.rs.gov.br/img2/v17n2_19solidaoVelhice.pdf.
Acesso em: 26 de novembro de 2012.
TEIXIERA,
L. M. F. Solidão e qualidade de vida em idosos: um estudo avaliativo
exploratório e implementação – piloto de um programa de intervenção.
Mestrado integrado de Psicologia. Universidade de Lisboa. 2012
[1] Dados disponíveis em: http://www.who.int/gho/mortality_burden_disease/life_tables/situation_trends_text/en/

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